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Internacional

Nova história bate à porta

Exatamente 60 anos atrás, a humanidade foi ameaçada por uma guerra entre as duas únicas superpotências mundiais. Os Estados Unidos haviam descoberto plataformas de mísseis instalados pelos russos em Cuba, a menos de 100 quilômetros do limite sul do território americano. Os dois países entraram em estado de prontidão para o confronto. Como ambos dispunham de imensos arsenais de ogivas nucleares, usá-los era uma hipótese possível.

Nesse caso, seria o fim da presença humana no planeta Terra – ou, pelo menos da civilização humana. Quando perguntado com que armas os homens voltariam a usar, Einstein respondeu que não saberia dizer quais seriam as da terceira guerra mundial. Mas a seguinte seria com arco e flecha.

Vladimir Putin resolveu comemorar a data recolocando a humanidade diante do pesadelo nuclear. A princípio, a ameaça pareceu apenas mais uma mentira do seu cinturão de mentiras para fins estratégicos. O que antes era cenário exclusivo de filmes e livros, se tornou assustadoramente real quando ele ordenou o alerta máximo das forças armadas russas, incluindo os militares que guardam e mantêm os silos e plataformas de armas nucleares. O tom de realidade foi renovado pela sinistra figura do ministro das relações exteriores de que não se devia deixar de cogitar uma terceira guerra mundial travada com mísseis nucleares intercontinentais. Coreia do Norte, Paquistão, Índia, França e Inglaterra (Israel? Irã?) deixariam de entrar nesse apocalipse russo-americano? Dada a ordem, o que pode impedir acidente, sabotagem ou um ataque terrorista?

Talvez a Rússia disponha de tantas dessas armas de extermínio mundial quanto todos esses países reunidos, incluído os EUA. O estoque remanescente em território russo quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas chegou ao fim, 30 anos atrás, era bem menor. Mas a Ucrânia concordou em devolver todas as armas que ficaram em seu território, reconhecendo serem de propriedade da Rússia, mediante um acordo de não beligerância com arbitramento externo.

Se os ucranianos tivessem se recusado a aceitar esse acordo, certamente o país se sujeitaria a uma invasão russa. Mas tão importante – ou mais até – quanto o poder de ação e coação da Rússia era o reconhecimento da autonomia, independência e identidade cultural da Ucrânia, incorporada à URSS (e, em seguida, ao império soviético, imposto pelas armas e a violência por Ióssif Stálin). O entendimento sobre o arsenal nuclear, cujo controle provocava preocupação com o desmoronamento de uma confederação de países com seus 293 milhões de habitantes espalhados por um território de 22,4 milhões de quilômetros quadrados.

Mesmo com os desmembramentos, a Rússia ainda era o mais extenso país do mundo, com 17,3 milhões de quilômetros quadrados, o dobro do território brasileiro, o 5º maior da Terra. Mas ao seu lado estava um país com 603 mil quilômetros quadrados e 44 milhões de habitantes. Na época da URSS, Kiev, a capital ucraniana, era a terceira maior cidade, abaixo apenas de Moscou e da então Leningrado (hoje, São Petersburgo).

Mas não se trata apenas de grandeza territorial e demográfica. A identidade cultural, o amor à pátria, o nacionalismo e as realizações do país fizeram da Ucrânia uma fonte de problema para os autocratas soviéticos, desde Lênin. Eles precisaram usar o chicote à menor manifestação de insubmissão dos ucranianos. Stálin fez tudo até para impedi-los de falar a sua língua e de manter os livros didáticos que tratavam do país como autônomo. Sempre foi tensa, mantida por uma cerca eletrificada de controle, fiscalização, a fronteira entre os dois países.

A fuga de um milhão de ucranianos em uma semana de agressão russa, a maior diáspora interna na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, não deixa dúvida sobre o terror que o exército russo impõe não só aos ucranianos, mas a todas as nacionalidades massacradas durante a formação do império soviético.

Essa fuga em massa, súbita e caótica, coloca os espectadores do mundo inteiro diante de cenas chocantes. Elas se tornaram rotineiras na periferia do centro de poder planetário. Chegam agora ao topo, mas a dor e o sofrimento são os mesmos. Só que exibidos o dia inteiro, com personagens que não estariam em tal situação se a ameaça em expansão não fosse muito pior do que toda e qualquer privação nessa fuga em massa – e desesperada.

Tenente-coronel de uma das mais poderosas polícias secretas de todos os tempos, a KGB. exercendo seu principal posto na Alemanha Oriental, em decomposição, na qual lidava com todos os grupos, sobretudo os clandestinos, que pudessem causar danos ao inimigo imediato, a Alemanha Ocidental, e ao agente oculto, os EUA, a capacidade raciocínio estratégico de Putin não pode ser subestimada. Mas uma deficiência grave pode ser constatada: ele não avalia bem as reações humanas aos seus movimentos externos. É o condicionamento que o treinamento da KGB lhe impôs.

Está evidente o seu propósito principal ao invadir a Ucrânia: dar o passo mais audacioso na escalada, iniciada em 2008 (apenas oito anos depois de chegar ao comando da Rússia), para reconstituir o império dos Romanov e dos bolcheviques – talvez agora maior e mais potente, por um elemento tecnológico diferenciador, as armas nucleares, e um fator humano: nenhum czar ou secretário-geral do Partido Comunista foi tão competente quanto Vladimir Putin, que virou ditador pelo voto e sob uma constituição. Por isso, está no poder há 22 anos e ficará por pelo menos mais 12 anos, se conseguir se manter como ditador.

Ele sabe que esse projeto depende do vasto apoio popular, que obteve através da política do medo, sustentado por resultados econômicos significativos e pela engrenagem clandestina de dinheiro (e de crimes) através das doações de oligarcas enriquecidos, como nunca, graças ao inquilino do Kremlin. Por trás da ação quase inacreditável de invadir a Ucrânia (numa blitzkrieg certamente inspirada nos nazistas), Putin utiliza o argumento mais forte para convencer a maioria dos russos a apoiá-lo: a ameaça de invasão externa.

Com valentia antológica, os russos venceram o maior de todos os generais que a humanidade criou, Napoleão Bonaparte. No século seguinte, derrotaram a maior máquina de guerra de todos os tempos, da Alemanha de Hitler. Agora, subjugando a traidora Ucrânia, afastaria das sagradas fronteiras do maior império da história os criminosos imperialistas americanos e seus venenosos aliados europeus.

Putin estava oferecendo, na bacia das almas do inconsciente coletivo russo, a oportunidade de serem tão heroicos quanto os seus antepassados, que vêm sendo tão difamados, injuriados e caluniados pela máquina de propaganda dos EUA. O objetivo deles seria, com camuflagem, isolar a Rússia, manobrando inclusive as repúblicas que foram soviéticas, e esmagar a Rússia, a tempo de impedir Putin de devolver-lhe a grandeza geopolítica que é naturalmente sua.

Mas ele errou fragorosamente na previsão das consequências desse plano fora do seu universo de controle. Ao aumentar a escalada da violência a partir do momento em que a sua guerra-relâmpago fracassou, atingindo alvos civis, e matando cada vez mais pessoas, ele tem diante de si a perspectiva de uma nova guerra da Chechênia (como a do Afeganistão), mas em escala muito mais ampliada e aprofundada. Em escala mundial.

Os corpos dos soldados russos que morreram, numa proporção que já demonstra o insucesso de uma guerra que deveria ser limpa, à base de mísseis, e da exibição de força capaz de inibir a reação e amedrontar a população, terão de ser enterrados por seus parentes e amigos. O povo começará a sentir os efeitos mais diretos de uma guerra que deveria ser acompanhada à distância. Se milhares de pessoas com coragem para fazer manifestações públicas de protesto contra Putin foram presas, quantas mais o serão? A base “putinesca” pode começar a sofrer corrosão, na sociedade como na estrutura de poder.

Já se esfrangalhou no mundo. Os intérpretes que veem unicamente o dedo americano nas teias às vezes invisíveis da massiva reação internacional contrária a Putin, sobretudo na ONU, não conseguem ver, sob a estrutura de poder anterior, uma nova ordem (sim, ordem e não desordem) mundial. Os exemplos são muitos e sérios. O fim da milenar neutralidade suíça. A “desnazificação” da Alemanha. A atitude agressiva dos países nórdicos contra Putin. O isolamento e a perda de significado dos países que apoiaram a agressão. E por aí está indo.

A questão-chave, que transcende fronteiras e desatualiza esquemas explicativo e presunções ideológicas, é: pode-se confiar em alguém capaz de usar armas nucleares se seus objetivos não forem alcançados? Essa pergunta está sendo feita no mundo inteiro, inclusive sob quatro paredes no Kremlin. Quem a responder, quando a responder, estará fazendo história, uma nova história. Ainda. Sem Putin.

Discussão

2 comentários sobre “Nova história bate à porta

  1. Nessa história toda, continuo a republicar mais um artigo de O Antagonista escrito por Mario Sabino abaixo:

    “Putin conseguiu militarizar ainda mais a Europa” (02/03/2022)

    [A agressão russa revigorou a Otan, transformou a União Europeia em fornecedora de armas e pode resultar na criação de um exército comum para o bloco]
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    Home>Mundo
    Putin conseguiu militarizar ainda mais a Europa
    Mario Sabino
    Mario Sabino
    02.03.22 17:02
    A agressão russa revigorou a Otan, transformou a União Europeia em fornecedora de armas e pode resultar na criação de um exército comum para o bloco
    Putin conseguiu militarizar ainda mais a Europa

    [Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, a pretexto de desmilitarizá-la, entre outras mentiras do criminoso imperialista, mas o que ele está fazendo é militarizar ainda mais a Europa, realizando a proeza de unir o continente em torno de um projeto comum de defesa.

    A ameaça russa revigorou a Otan, que parecia ferida de morte desde o início da presidência de Donald Trump. Washington aumentou o seu contingente de soldados na Europa e todos os países da aliança militar ocidental que fazem fronteira com a Rússia e a Ucrânia receberam reforços de homens e armamentos. Suecos e finlandeses estão propensos a ingressar na Otan, depois de serem advertidos por Vladimir Putin para não fazê-lo. Ficar sem um escudo coletivo contra Moscou virou quase sinônimo de insanidade.

    A União Europeia, que jamais havia financiado o fornecimento de armas para nenhum país, fez isso pela primeira vez em relação à Ucrânia, como observou a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen. É uma mudança de paradigma gigantesca. O bloco agora tem outro atrativo, além do econômico, por embutir também um compromisso com a defesa de todas as suas nações e contar com a maior potência nuclear do continente, depois da Rússia – a França. É por esse motivo que a Geórgia, por exemplo, ex-república soviética que Vladimir Putin invadiu em 2008, vai pedir para entrar imediatamente na União Europeia, da qual é membro associado. O presidente francês Emmanuel Macron, atual presidente do Conselho da Europa, é partidário da criação de um exército comum para o bloco — e sempre esbarrou na resistência alemã, principalmente. O quadro mudou desde a invasão da Ucrânia: a criação de uma força de defesa da União Europeia passou a ser vista com simpatia por Berlim e outros países que eram resistentes a essa ideia. Hoje, em pronunciamento em cadeia nacional, Emmanuel Macron anunciou que, nos próximos dias 10 e 11 de março, os líderes europeus discutirão a ideia em Versalhes. “Não podemos depender dos outros para nos defender”, disse ele.

    A Alemanha merece atenção especial. A derrota na Segunda Guerra emasculou militarmente a maior potência econômica da Europa e, pelo receio que os alemães inspiram por razões históricas abundantes, a entrada da então Alemanha Ocidental na Otan, na década de 1950, ensejou em resposta a formação do Pacto de Varsóvia, a aliança militar que reunia os países da Cortina de Ferro, numa das principais escaladas da Guerra Fria. Com a invasão da Ucrânia, os alemães, que vinham enviando apenas capacetes para Kiev e impedindo que os britânicos usassem o seu espaço aéreo para fornecer armamentos à Ucrânia, não só decidiram enviar uma grande quantidade de foguetes antitanque e mísseis antiaéreos para o país agredido pela Rússia, como o chanceler Olaf Scholz anunciou que a Alemanha elevará o seu orçamento militar para mais de 2% do PIB. Isso significa algo em torno de 80 bilhões de dólares por ano — quase o dobro do dinheiro destinado por Moscou às suas forças armadas.

    Vladimir Putin conseguiu.

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    Publicado por Igor | 3 de março de 2022, 12:02

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