//
você está lendo...
Internacional

O ovo da serpente

Os quatro integrantes da família faziam parte da população de Irpin, cidade de 60 mil habitantes, localizada a 20 quilômetros de Kiev, a capital da Ucrânia. Pai, mãe, um filho adolescente e uma menina tentavam fugir das agressões das tropas russas, levando consigo – de tudo que constituía sua vida – o que coube em suas mochilas, mais o fiel cão doméstico, o único sobrevivente, dentro de uma caixa. Foram atingidos por estilhaços de um dos muitos morteiros disparados pelas tropas invasoras na busca pela ocupação da capital ucraniana, com três milhões de habitantes.

O responsável por essas e todas as demais atrocidades que acompanhamos a partir das nossas poltronas é o mais poderoso chefe de Estado neste momento no mundo, que se impõe pela ameaça, por ele já feita, de acionar a mais terrível arma já fabricada pelo ser humano, de ogiva nuclear. A pergunta que boa parte da humanidade se faz, chocada pelo horror, é: como Vladimir Putin pode ser tão cruel, tão desalmado, tão sanguinário, tão insensível?

A história responde a esse tipo de questionamento com capricho, como a madrasta má, como a sádica manipuladora de fatos. Putin sobreviver ao fim da mais cruel polícia secreta de todos os tempos, a KGB. Começando a escalar o poder, tratou de reunir os personagens que a queda da União Soviética e seus satélites parecia ter enterrado, transformando-os na mais perigosa guarda pretoriana, Ela ocupa 25% dos cargos no Kremlin. É o ovo da serpente, que sobreviveu ao renascimento histórico e agora se expande, destruindo as barreiras e atingindo quem esteja no seu raio de ação.

O que são quatro pessoas no universo de milhões já massacrados e a massacrar? Quem não se conscientizar dessa circunstância, de história nada entende. Nem do valor de uma única vida.

Discussão

4 comentários sobre “O ovo da serpente

  1. Imagens como essa estão proibidas na Rússia, pois seu ditador decretou 15 anos de cadeia para quem publicar notícias sobre a guerra (ou o eufemismo que o neoczar inventou pra fazer o povo russo crer que seus jovens militares estão na Ucrânia apenas a passeio ou a treinamento, ou seja, a tal “operação militar especial”) . Putin só pode sobreviver dentro de sua bolha de mentiras, onde neva quando ele bem entende.

    Aliás, compartilho um artigo de Magnoli abaixo: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2022/03/na-longa-mesa-de-putin.shtml

    Curtir

    Publicado por igor | 7 de março de 2022, 13:09
  2. Parte do relato do Vargas Lloza, está no filme “A Sombra de Stalin”, na Netflix:

    A tragédia da Ucrânia,
    por Mario Vargas Llosa. (Texto de há 3 anos)

    Em 1928, Stalin fez uma viagem pela Sibéria que durou três semanas. Tinha derrotado seus adversários dentro do Partido Comunista e já era o amo supremo da União Soviética. Os cereais começavam a escassear no imenso território e, depois do que viu e ouviu naquela viagem, Stalin tirou as conclusões ideológicas pertinentes. Segundo a doutrina marxista, a culpa era dos camponeses retrógrados, que, graças à expropriação dos latifúndios e à liquidação dos kulaks, tinham se tornado pequenos proprietários de terra e contraído as taras características da burguesia. A solução? Obrigá-los a ceder suas granjas e a se incorporar às fazendas coletivas que os tornariam proletários, a força poderosa e renovadora que substituiria sua mentalidade burguesa pelo fervor solidário dos bolcheviques.

    Essa é a origem, segundo Anne Applebaum, em seu extraordinário livro Red Famine: Stalin’s War on Ukraine (fome vermelha: a guerra de Stalin contra a Ucrânia), do colapso da agricultura em todos os domínios da URSS, mas que golpearia principalmente, com ferocidade inigualável, a Ucrânia, causando, nos anos de 1932 e 1933, vários milhões de mortes e cenas arrepiantes de suicídios, assassinatos de crianças, saques e canibalismo. A pesquisa realizada pela autora revela ao mundo, em sua dimensão apocalíptica, um acontecimento que, pelo menos em suas características reais, tinha sido ocultado pela censura stalinista, apesar dos esforços isolados de alguns historiadores como Robert Conquest, em The Harvest of Sorrow (a colheita do sofrimento), para divulgá-lo. Mas só agora, com a independência da Ucrânia, os documentos e testemunhos relativos àquele holocausto podem ser consultados e Anne Applebaum, que domina plenamente o russo e o ucraniano, tem feito isso com meticulosidade e objetividade escrupulosa.

    Segundo ela, a fome foi premeditada por Stalin e seu séquito de cúmplices – Molotov, Kaganovich, Voroshilov, Postishev, Kosior e alguns outros − para subjugar a Ucrânia, frear qualquer tentativa de nacionalismo em seu seio e liquidar as organizações que resistiam a integrá-la à URSS sob o açoite de Moscou. Ela cita como prova o fato de que, naqueles mesmos anos, o Politburo soviético reduziu drasticamente a publicação de livros e jornais em ucraniano, assim como o ensino dessa língua nas escolas e universidades, e impôs o russo como idioma oficial do país.

    Seja como for, em 1929 é iniciada a dissolução das pequenas propriedades agrícolas a fim de incorporá-las às fazendas coletivas. Os camponeses, que tinham visto com simpatia a revolução, resistem a entregar suas terras e seu gado, e a se associar às enormes empresas coletivas que, dirigidas por burocratas do partido, costumam ser pouco eficientes. As instruções de Stalin são rigorosas: aquela resistência só pode vir dos inimigos de classe que querem acabar com o socialismo, e deve ser esmagada sem piedade pelos revolucionários. As brigadas comunistas percorrem os campos confiscando propriedades, gado, ferramentas agrícolas e sementes, e mandando para a prisão quem não colabora. Um dos chefes do Gulag, na Sibéria, envia um telegrama a Moscou pedindo que não lhe enviem mais detidos porque já não tem como alimentá-los. Ao mesmo tempo, um prisioneiro escreve para sua família: “Que maravilha! Eles me dão um pãozinho por dia!”

    As colheitas começam a encolher, os roubos e ocultação de alimentos se multiplicam por todo lugar, Stalin insiste que o partido deve ser “implacável” em sua luta contra os sabotadores da revolução, e a fome entra em cena com suas terríveis sequelas: roubos, assassinatos, suicídios, aldeias que desaparecem porque todos os seus habitantes fugiram para as cidades na esperança de encontrar trabalho e alimentos. Os cadáveres já são tão numerosos que ficam estendidos nas ruas e estradas porque não há gente suficiente para enterrá-los.

    Os testemunhos reunidos por Anne Applebaum são de arrepiar: há pais que matam seus filhos com as próprias mãos para que não sofram mais e, os mais desesperados, para se alimentar com eles. Já comeram todos os cães, cavalos, porcos, gatos e até ratos que conseguiam pegar, e os comunicados que chegam à Ucrânia vindos de Moscou são cada dia mais urgentes: negar a fome e, principalmente, o canibalismo e os suicídios, e punir sem dó os verdadeiros causadores dessa catástrofe: os inimigos de classe, os fascistas, os kulaks, os responsáveis reais pelas calamidades que se abatem sobre a Ucrânia.

    Quantos morreram? Cerca de cinco milhões de ucranianos, pelo menos. Mas não há como saber com exatidão, porque as estatísticas eram forjadas pela disciplina partidária que assim exigia ou pelo medo dos burocratas do partido de ser punidos como responsáveis pela fome. O Kremlin impôs, além disso, uma versão oficial dos acontecimentos que era reproduzida não só pela imprensa comunista, mas também pela capitalista, que fazia isso por meio de jornalistas vendidos ou covardes, como o repulsivo Walter Duranty, então correspondente do jornal The New York Times, que, comprado com casas e banquetes por Stalin, dava um jeito, em artigos que pareciam redigidos por um Pôncio Pilatos moderno, de apresentar um quadro de normalidade e desmentir os exageros de certos testemunhos que conseguiam vazar para o exterior sobre o que realmente ocorria na URSS e, principalmente, na Ucrânia. Uma das exceções foi o britânico Gareth Jones, quem conseguiu percorrer a pé o coração da fome durante várias semanas e contar aos leitores ingleses do jornal The Evening Standard os horrores vividos na Ucrânia.

    Ler um livro como o de Anne Applebaum não é um prazer, e sim um sacrifício. Mas obrigatório, se queremos conhecer os extremos a que podem levar o fanatismo ideológico, a cegueira e a imbecilidade que o acompanham, e a irremediável violência que, mais cedo ou mais tarde, vem como consequência. A fome e as mortes na Ucrânia ajudam a entender melhor o terrorismo jihadista e a bestialidade irracional que consiste em se tornar uma bomba humana e explodir em um supermercado ou uma discoteca, pulverizando dezenas de inocentes. “Ninguém é inocente!” era um dos gritos do terror anarquista segundo Joseph Conrad, que descreveu melhor do que ninguém essa mentalidade em O Agente Secreto.

    Se ler o livro de Anne Applebaum provoca calafrios, como terão sido os anos que sua autora levou para escrevê-lo? Posso imaginá-la muito bem, imersa horas e horas em arquivos empoeirados, lendo informes, cartas de suicidas, sermões, e descobrindo de repente que está com o rosto encharcado de lágrimas ou que está tremendo da cabeça aos pés, como uma folha de papel, transubstanciada por aquele apocalipse. Ela deve ter sentido mil e uma vezes a tentação de abandonar essa tarefa terrível. No entanto, continuou até o fim, e agora esse testemunho atroz está ao alcance de todos. Aconteceu há quase um século lá na Ucrânia, mas não nos enganemos: não é coisa do passado, continua ocorrendo, está ao nosso redor. Basta ter a coragem da Anne Applebaum para ver e enfrentar isso.

    (Levei do mural de Alessandro Gagnor Galvão)

    Curtir

    Publicado por JOSE OTAVIO FIGUEIREDO | 7 de março de 2022, 16:02
  3. Um momento para que políticos, jornalistas , …, todos , leiam, reflitam, sobre o que Gandhi fez para acabar/derrotar o império inglês ( talvez um dos maiores que nossa aldeia já teve) . Guerra não mais devia ser decidida por um ou mesmo um “grupinho” . Quando teremos, a dita democracia direta? É momento das escolas, dos “media” ( médias/mídias/…, divulgarem o que a desobediência civil pode fazer para evitar armas/dor/sangue/…
    “Não existem caminho para a paz. A paz é o caminho”

    Curtir

    Publicado por valdemiro | 7 de março de 2022, 16:02
  4. Republico mais um artigo de O Antagonista escrito por Mario Sabino abaixo:

    “Não importa se Putin está louco ou doente” (08/03/2022)

    [Só os russos deveriam preocupar-se com isso. O fato verificável é que tudo o que o ditador perpetra hoje já foi cometido por ele em outros conflitos]

    [Os ucranianos civis que permanecem em Kiev, firmes na disposição de ajudar na resistência ao exército russo que avança com dificuldade rumo à capital do país, cercam a praça Maidan, no centro da cidade, com barricadas feitas de sacos de areia. Defendem, assim, o local de onde irradiou a revolução de 2013-2014, que derrubou o fantoche de Vladimir Putin (foto) que ocupava a presidência da República, Viktor Ianoukovitch, por ele ter traído o povo ao não assinar o acordo que permitiria o ingresso da Ucrânia na União Europeia.

    Homens e mulheres, velhos e jovens, juntavam-se ontem nesse esforço de construção de barricadas, ao som do hino ucraniano, numa demonstração de que o patriotismo pode não ser apenas o último refúgio dos canalhas, como escreveu Samuel Johnson, mas também o dos heróis anônimos. Assim como ocorreu na Revolução da Praça Maidan e, decênios antes, nos sofrimentos infligidos por Adolf Hitler e Josef Stalin, o patriotismo ucraniano vem sendo forjado no sangue, no suor e nas lágrimas — e, nesse caso, essa está longe de ser apenas uma imagem de oratória.

    Vladimir Putin tenta cancelar a existência da Ucrânia como país, mas as suas fronteiras são bem definidas e muito mais amplas do que ele imagina, porque estão desenhadas nas almas dos resistentes e mesmo daqueles que escaparam do inferno russo, para salvar as suas crianças e velhos. Hoje, o número de refugiados deverá chegou a 2 milhões. A previsão é que até 5 milhões de ucranianos poderão afluir à Polônia, Eslováquia, Romênia e Moldávia, que fazem fronteira com o país agredido covardemente pela Rússia. Mas se engana quem pensa que isso representa uma derrota: redobra a força dos que ficaram.

    Enquanto os soldados de Vladimir Putin arrasam cidades inteiras, matando e aterrorizando civis, e fingem organizar “corredores humanitários”, o Ocidente pergunta-se se o ditador russo está desequilibrado. Diante dos absurdos a que se assiste na Ucrânia, o pretexto falso de que a Otan é uma ameaça e de que o país foi invadido por ser “nazista” e persegue as minorias de língua russa caiu completamente por terra, sobrevivendo apenas na propaganda comandada pelo Kremlin e nas mentes idiotas que povoam as redes sociais.

    De fato, desde que começou a pandemia de Covid-19, o ditador russo isolou-se ainda mais do já pouco convívio humano que mantinha, convivendo apenas com os seus fantasmas e ilusões de onipotência. Hoje, segundo se diz na imprensa europeia, ele tem contato com apenas cinco pessoas. Uma das suposições é que o seu medo exagerado de pegar o vírus é porque ele padece de uma doença grave que fragilizou o seu sistema imunitário. A outra é que, com a paranoia elevada à enésima potência, ele receia ser assassinado por um opositor infiltrado no Kremlin. Não há necessariamente excludência nessas possibilidades.

    Se Vladimir Putin está louco, doente ou ambas as coisas não importa para os ucranianos, da mesma forma que a saúde mental de Adolf Hitler não importava para os povos dos quais foi carrasco. Deveria importar apenas para os próprios russos. O fato verificável é que tudo o que Vladimir Putin perpetra hoje já foi cometido por ele em outros conflitos. Usar “corredores humanitários” como armadilhas para civis, por exemplo, foi artifício utilizado na Síria, em 2015, para tomar a cidade de Alep, que resistia ao ditador Bashar al-Assad. Os “corredores humanitários” só facilitavam o bombardeio mortífero de vítimas indefesas. Os ataques aéreos a alvos civis também ocorreram em Grozny, na Chechênia, em 1994 e 1999, e em Donbas, na própria Ucrânia, em 2014. A sua crença de que foi um erro trágico deixar o império soviético esfacelar-se vem sendo manifestada desde que ele assumiu poder, há 22 anos.

    Há linha de pensamento e método, portanto, no que seria a loucura de Vladimir Putin — e, se ele sofre de alguma doença terminal, só está apressando o que sempre pensou ser o seu destino, o de ressuscitar o que pensa ser a “grande Rússia”. A pergunta a ser feita continua a ser como é que o Ocidente pôde fechar os olhos para um personagem demoníaco como esse, seja por meio da tibieza na reação às suas brutalidades, seja pela dependência do gás e do petróleo russos.

    É essa pergunta que deve estar na cabeça dos ucranianos que hoje constroem barricadas na Praça Maidan.]

    Curtir

    Publicado por igor | 8 de março de 2022, 18:58

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: