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Estrangeiros, Ferrovia, Internacional, Minério

O Antonov esteve aqui

(Texto publicado em setembro do ano passado, que reproduzo a propósito da derrubada do maior avião do mundo na guerra dos russos na Ucrânia)

Em duas semanas seguidas, entre o final de fevereiro e o começo deste mês, pousaram quatro vezes no aeroporto de Belém dois dos maiores aviões cargueiros do mundo, o russo Antonov e o Boeing 747, americano. O maior dos dois, só menor do que a sua versão mais moderna, o Antonov tem 73 metros de envergadura por 69 metros de comprimento e 21 metros de altura.

Ele e o Boeing fizeram três longos voos a partir da Austrália, transportando carga pesada para um único cliente, Vale. Embarcada na Austrália, a carga atravessou o mundo, passando pela Oceania, Ásia, Europa, América do Norte e Belém, seguindo o sentido do sol, em dois ciclos completos.

Os equipamentos de mineração, uma vez desembarcados em Belém, foram colocados em várias carretas e transportados para o sul do Pará. O destino, diante 550 quilômetros da capital paraense, a 11ª mais populosa cidade do país, com quase 1,5 milhão de habitantes, era a maior província mineral do planeta. Dezenas de pessoa foram ao aeroporto para o raro espetáculo de ver com os próprios olhos as duas gigantescas aeronaves.

Elas só chegam a Belém quando, a cada dois ou três anos, a Vale precisa repor seus estoques de maquinários para a sua lavra, de porte tão grande quanto os aviões cargueiros. São brocas de perfuração e peças e pneus para os maiores caminhões do mundo, chamados de fora de estrada, que operam na maior mina a céu aberto do mundo.

No seu site, a Vale apresenta esse mundo em escala ampliada:

“Quem visita as minas de ferro da Vale em Carajás, no sudeste do Pará, tem a impressão de que está numa terra de gigantes. Nas ruas com o dobro da largura convencional, onde placas de sinalização e semáforos estão instalados a 10 metros de altura, circulam 105 caminhões fora de estrada. Quem se depara com um deles pela primeira vez fica impressionado. Com oito metros de altura, 15 metros de comprimento e rodas que têm o dobro do tamanho de uma pessoa, esses caminhões têm capacidade para transportar até 400 toneladas – o mesmo volume de um avião Boeing 747, que leva em média 415 pessoas. Em um dia, a frota movimenta 800 mil toneladas de carga, suficiente para encher o estádio do Maracanã em apenas 24 horas”.

E ressalta:

“O caminhão fora de estrada é um tipo de equipamento que só pode ser encontrado em lugares como as minas de ferro da Vale. Para entrar em um deles é preciso fazer esforço. A cabine do operador, como são chamados os 525 motoristas do caminhão, encontra-se no alto de uma íngreme escada de 16 degraus. Dentro dela, o conforto é total: banco ergométrico para não cansar o operador (e um improvisado para os caronas), ar-condicionado (num local onde a temperatura faz, em média, 32º Celsius) e duas telas de computador. Elas trazem dois tipos de informação: a primeira é a missão do dia. Ou seja, para qual frente de exploração o operador deve se dirigir. A segunda transmite imagens captadas por uma câmara instalada na parte traseira do veículo e que ajuda o operador a dirigi-lo”.

Com tantas comodidades, a própria empresa admite: a dificuldade está nas dimensões. “A visibilidade é muito ruim”, diz Ádila de Oliveira, 23 anos, operadora de caminhão. “Às vezes não dá para ver se tem alguma coisa perto do veículo”, ela declarou, referindo-se à falta de equipamentos de segurança.

“O problema de visibilidade já resultou em acidentes”, reconhece a mineradora. Ela cita um acidente de 2007, quando um trabalhador morreu ao ser atropelado por um caminhão fora de estrada dentro de uma mina. Mas fica nesse, sem esclarecer que a morte foi uma combinação dessa grave limitação do caminho, que vale mais de 7 milhões de dólares (quase 40 milhões de reais), com uma falha no sistema de iluminação

As pessoas que filmavam e fotografavam os aviões estacionados no pátio do aeroporto sabiam mais sobre essas máquinas do que sobre as minas de Carajás, de onde a Vale extrai centenas de milhões de toneladas de rochas com minérios de ferro, manganês, cobre, níquel, ouro e prata nelas contidos. Dos 300 milhões de toneladas de minério de ferro que a Vale produziu no ano passado, 192 milhões – do melhor minério do mercado – saíram de Carajás, 60% comprados pela China. Lá, provavelmente, há mais gente bem informada sobre Carajás do que em Belém do Pará.

Discussão

2 comentários sobre “O Antonov esteve aqui

  1. Olá Lúcio.

    O modelo de Antonov que esteve em Belém foi o 124, irmão menor do 225 Myria. Há relatos que no início dos anos 2000 o mesmo esteve na cidade para uma missão semelhante.

    O aeroporto internacional tem pátio e capacidade do pavimento para aeronaves desse porte, até o Boeing 747-400 ou o 777-300ER(modelo que a Latam utiliza).

    Diferentemente de Guarulhos, Campinas e Galeão que possuem reforços estruturais nas pistas e outros ítens auxiliares de infraestrutura para o maior de todos, o 225.

    Um 747-400 cargueiro pode levar até 128 toneladas, um Antonov 124 “até” 150 toneladas e o 225, este atingido por bombas em Gostomel, até surpreendentes 250 toneladas. Existe uma unidade ainda inacabada, mais os custos estimados em ativala operacionalmente passam de três bilhões de Dólares, o que a princípio torna inviável sua volta aos ares.

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    Publicado por flightfernando | 9 de março de 2022, 15:50

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