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Estradas, Governo, Imigração, Polícia, Política, Violência

A lei da bala

O Pará tem 50 clubes de tiro. É o 17º do Brasil na proporção clube/população (índice de 5,7 por milhão de habitantes), segundo levantamento publicado pelo portal Brasil 360. Há 1.941 clubes de tiro em todo país. O líder do ranking é o Estado de Santa Catarina, com o índice cinco vezes maior do que o paraense, de 29,9. Rondônia é o segundo do país (índice 27,9).

Os demais Estados da Amazônia Legal a seguir são Mato Grosso (5 º lugar, com 18,1) e Tocantins (7º, com 13,3). Abaixo do Pará: Roraima (13º, com 7,6), Acre (20º, 4,4), Amapá (25º, 3,4) e o último de todos, o Amazonas, em 27º, com 1,9.

O portal destacou que em 9 dos 10 Estados brasileiros com mais clubes de tiro, Jair Bolsonaro venceu em 9. A exceção foi o Tocantins, onde o vencedor foi o petista Fernando Haddad. Considerando-se os 27 Estados, Bolsonaro venceu em 16 deles. Deduz-se dos dados que o ex-oficial do Exército é mais votado onde há mais clubes de tiro, resultado coerente com a pregação que ele sempre fez pelo armamento da população, facilitando o porte de armas.

Como reiterou mais uma vez nesta semana, depois de dar o perdão ao ex-PM e atual deputado federal Daniel Silveira, que ganhou notoriedade por sua truculência e aversão à democracia, não apenas – nem principalmente – para que o cidadão se defenda do bandido da esquina. A arma em poder de cada habitante disposto a tê-la pode servir a ações políticas.

Se o incentivo ao armamento alcançar boa acolhida (e 2 mil clubes de tiro são um bom indicador nessa direção), o presidente da república pode liderar um movimento político e contar com uma imensa milícia de cidadãos armados ao seu lado. A iniciativa poderia até desencadear um golpe como a da marcha sobre Roma, que colocou o fascismo (e Mussolini) no poder na Itália.

Interpretações políticas globais à parte, os números do cadastro dos clubes de tiro do Brasil têm um significado para a Amazônia: há mais impulsos para o manejo de armas nos Estados da região que são o destino de frentes pioneiras, que levam imigrantes para áreas novas de ocupação econômica abertas pelas estradas de rodagem.

Rondônia e Mato Grosso, que há algum tempo tentam se desligar da Amazônia Legal, por um sentimento de identidade com o Centro-Oeste (e o sertão), estão no topo dos clubes de tiro. Evidência da violência e da tensão características em seus territórios.

O Pará em 17º lugar poderia ser considerado uma contradição com a tradição (inaugurada na década de 1960 com as estradas de penetração e colonização) de violência. Como Belém é a cidade mais violenta da região (e das mais sangrentas do mundo entre países que não vivem guerras), pode-se concluir que, quanto ao ambiente urbano (onde está a maioria dos clubes de tiro), quem mata não vai a clube de tiro. Usa a arma no dia a dia da criminalidade em expansão. Clube de tiro é para a elite.

O raciocínio, que vale para a Amazônia em expansão migratória e econômica acelerada (e descaraterização e destruição), pode ser aplicado para explicar o Amazonas como o Estado com a menor proporção de clubes de tiro por habitantes. Possui o maior território, com predomínio da floresta e o mundo ao seu redor, mais extensos maciços físicos e humanos intocados, a menor destruição ecológica, a maior concentração demográfica na capital, com metade da sua população.

O Amazonas ainda é uma esperança na – e para a – Amazônia. Mas, a julgar pelo avanço recente das frentes econômicas, não por muito tempo. Nem com menos violência.

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