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Governo, Imprensa, Polícia, tráfico de drogas

A droga, a polícia e a imprensa

Manchete da edição de hoje do Diário do Pará: “Apreensão de drogas no Pará triplicou em 2 anos”. Embaixo da manchete, o texto: “Operações policiais apreenderam 3 toneladas de drogas em 2019, número que subiu para 9 toneladas em 2021, segundo dados da Segup”.

A questão é realmente grave, do máximo interesse público. Os números em si impressionam: pouco mais de 24 toneladas de drogas apreendidas em três anos. O crescimento dos 3.418 quilos de 2019 para os 10.934 quilos de 2020 é de chamar a atenção. O número continuou alto no ano passado, mas houve diminuição de 1.224 quilos, ficando em 9.710 quilos.

O que aconteceu? Como não deu atenção a esse fato, a matéria principal da edição dominical do jornal do governo nada diz a respeito. o texto da capa passa de 2019 para 2021, suprimindo a queda em 2020. Já o texto de dentro ressalta que houve a triplicação, ocorrida entre 2019 e 2020, mas não entre 2021, como destacou o jornal. Rigorosamente, para que a afirmativa fosse correta, em 2021 as apreensões deveriam ter somado 10.254 quilos e não os 9.710 quilos anotados. A diferença, de 544 quilos, não é pequena tratando-se de drogas. Principalmente se a droga apreendida for totalmente cocaína, ou principalmente ela, de maior valor.

Neste ponto está outra grande deficiência da matéria. Ela informa que a droga mais apreendida foi cocaína, seguida da maconha. Quanto de cocaína e quanto de maconha, nada diz. A informação é relevante para uma interpretação mais profunda dos dados.

A Polícia Militar é responsável por 62% do total de 24 toneladas apreendidas, ou 15 toneladas. Como a PM tem efetivo muito maior, dispõe de melhor logística e mais mobilidade, sua preponderância, sobretudo pela presença ostensiva no interior do Estado, deveria resultar em prisão de personagens de maior destaque no narcotráfico e a eliminação dos pontos de redistribuição interna e exportação da droga. Informações mais precisas sobre as quantidades das diversas drogas apreendidas ajudaria bastante a análise.

Jornal oficioso do governo, o Diário não se interessa por esses “detalhes”. O objetivo maior é a propaganda em favor do patrão (ou da família como corporação política e empresarial). Repórteres e policiais têm pontos em comum positivos. Mas só se a imprensa fiscaliza, cobra e denuncia em nome da segurança coletiva e a polícia presta as informações, esclarecendo ou desmentindo o jornalista quando ele erra, não como inimigo, mas como elemento essencial em uma sociedade democrática. Semelhanças favoráveis consideradas, policial é policial, jornalista é jornalista (e bandido é bandido, admitido o vice-versa).

No Pará isso virou utopia, quando não é mesmo fantasia. Bem onerosa para o povo.

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