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Justiça, Polícia

Do drama à tragédia

O Liberal começou a cobertura da morte da juíza Monica Maria Andrade Figueiredo de Oliveira dando ao assunto meia página na capa da edição do dia 18, com a manchete, e duas páginas internas. Hoje, o caso recebeu apenas a terça parte de uma página interna, com mais espaço para duas fotos do velório. Já o Diário do Pará, que (surpreendentemente) foi mais comedido no início, hoje ignorou o tema.

Caso encerrado para a imprensa da capital? Aparentemente, sim, ao menos no que depender da iniciativa dos dois jornais. Eles podem achar que esgotaram a questão ao publicar as manifestações das partes envolvidas na história, principalmente do viúvo, o juiz João Augusto Figueiredo de Oliveira Júnior. Seria silêncio respeitoso em memória da juíza e de proteção à intimidade da sua família.

Esse tratamento não costuma ser adotado quando os protagonistas são pessoas anônimas, pobres ou da periferia, principalmente pelo Diário, que aproveita para atrair o leitor com o sensacionalismo dos seus microtextos e macrofotografias de cadáveres.

O silêncio nesse caso, porém, é renúncia à prática do jornalismo. Os repórteres parecem ter se reduzido a coletores de versões e ouvintes de fontes, repassando o que lhes é informado. A investigação própria, independente e competente desapareceu. Não era raro, no passado, que o repórter se antecipasse à polícia e fizesse revelações, a partir da busca pelos fatos junto aos atores do enredo.

O drama vivido pelo casal de juízes se transformou em tragédia, mas faltam informações essenciais para o preenchimento da trama até o suicídio, que todos os que se manifestaram até agora garantem ter sido o desfecho incontestável da história. O comportamento de Monica é tão desconcertante quanto o de João Augusto, tornando surpreendente e chocante o que ela fez depois de ter tido uma “pequena discussão” com o marido, conforme ele mesmo definiu o que aconteceu. Um “lamentável incidente”.

Monica refez as malas e saiu do apartamento para voltar para Campina Grande, na Paraíba, de onde chegara para passar alguns dias com o marido. Além de não ter tentado impedi-la de ir embora, o juiz nem a acompanhou ou se dispôs a levá-la a um novo destino. Permaneceu no apartamento, indo dormir normalmente.

Ao invés de ir para um hotel ou qualquer outro local para se preparar para a nova viagem, a juíza entrou no carro do marido, que estava aberto, com a chave na ignição. Mas não ligou o veículo, para usá-lo (sabia dirigir?), como poderia ser a primeira hipótese. Abriu o porta-luvas, dele tirou o revólver do marido, que estava carregado, e atirou contra o peito, se matando (sabia atirar?) com esse único disparo, que ninguém parece ter ouvido.

Ao descer, na manhã do dia seguinte, para ir trabalhar, como de rotina, João Augusto se deparou com o corpo da mulher no banco de passageiros do automóvel. Constatou que ela já estava morta havia algum tempo, com o corpo enrijecido, mas ainda sangrando. Concluiu que ela se suicidara e que seu gesto resultara de “um momento de fraqueza”, mesmo sem ter havido qualquer perícia nem ouvida qualquer pessoa estranha ao casal para uma avaliação mais objetiva.

Se estava caracterizada a morte, por que o marido não ficou guardando o corpo da sua esposa para preservar o local? Por que ligou logo para a divisão de homicídios da polícia civil e não para o instituto médico-legal, para o 192 ou para um hospital?

Agindo como agiu, criou uma cena insólita: um juiz criminal, titular de uma vara que trata justamente de violência doméstica contra mulheres, levando o cadáver da esposa para a divisão policial que cuida de homicídios. Em seguida, participou, como se estivesse no exercício da sua função de juiz criminal, de todos os atos da polícia “possíveis e imaginários”, de acordo com as suas palavras, para elucidar a morte, por homicídio, já considerado provado.

Se o aspecto estritamente objetivo da história está esclarecido, sua dimensão humana ainda é um capítulo em aberto, que precisa continuar a ser escrito.

Discussão

2 comentários sobre “Do drama à tragédia

  1. Morte por Suicídio ( correção no final do texto ).

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    Publicado por Cliff | 20 de maio de 2022, 11:19
  2. Essa história tá mal contada.Algumas lacunas a serem preenchidas.

    Curtir

    Publicado por Cliff | 20 de maio de 2022, 11:22

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