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Justiça, Polícia

Caso da juíza: por que o sigilo?

Eram 6,40 da manhã do dia 17 quando o juiz João Augusto Figueiredo de Oliveira Júnior se acordou, como fazia rotineiramente, para ir trabalhar no fórum de Belém. Depois de se aprontar, procurou – e não encontrou – a chave do seu carro. Pegou a chave reserva e desceu o elevador do prédio onde mora.

Ao se aproximar do seu carro, estranhou a porta estar aberta. Ao ver o corpo da esposa, a também juíza Monica Maria Andrade Figueiredo de Oliveira, pensou que ela passara a noite dentro do veículo. Mas percebeu um buraco no peito da mulher. Concluiu que ela “tinha cometido suicídio”, usando o revólver que o marido sempre deixava carregado no porta-luvas do veículo”. Ela sabia atirar, a ponto de morrer com um único disparo no peito?

A morte deveria ter acontecido imediatamente, deduziu logo o marido, porque seu corpo “já estava enrijecido, frio e tinha sangue saindo pela boca”.

Nos momentos seguintes, o juiz fez várias ligações. Ao tomar uma decisão, fez o que um juiz criminal como ele jamais deveria fazer (nem mesmo uma pessoa comum): entrou no carro e levou o cadáver da mulher para a divisão de homicídios da polícia civil, onde depôs, às 7,56, apenas uma hora depois de ter descoberto a morte da esposa.

Ao agir dessa maneira, o juiz da vara que trata da agressão doméstica às mulheres, muito frequente no cotidiano de Belém, desfez a cena do crime, prejudicando a perícia no local. Isso não parece havê-lo perturbado. Na primeira manifestação pessoal sobre o ocorrido, para o Jornal Nacional da TV Globo, ele garantiu que a divisão de homicídios fizera “todo o possível e imaginário” para coletar provas, que, certamente ele esperava, comprovariam a tese do suicídio.

Não se sabe se essa interpretação é correta. O inquérito está sendo mantido sob sigilo, um sigilo injustificável, já que o principal personagem, o próprio juiz João Augusto, foi à polícia e fez um boletim de ocorrência, além de se estender sobre o episódio.

Segundo ele, o que houve foi “uma pequena discussão sobre o relacionamento” do casal. Não informou mais sobre o conteúdo, o início e a duração do fato. Uma interpretação possível é ter durado uma hora, entre 10 e meia e 11 e meia da noite de segunda-feira, 16.

O que os esposos devem ter dito um ao outro que levou Mônica a decidir viajar imediatamente de volta a Campina Grande, na Paraíba, de onde saíra para encontrar o marido em Belém? Para que ela, na descida do apartamento, sozinha, tenha mudado sua intenção, indo para o carro e lá se matando, a discussão dificilmente terá sido “pequena”, como João a classifica. Sua versão não convence.

Não são verossimilhantes outros pontos das suas declarações, como o local onde estariam as chaves titular e reserva; seu comportamento depois da discussão; a conclusão imediata de que o tiro no peito fora dado por Mônica, num “momento de fraqueza” que a levou a pôr fim a uma vida de apenas 47 anos, jovem, bonita e atraente, com profissão de prestígio e boa remuneração, deixando órfãos seus dois filhos do primeiro casamento (o que teve com o juiz paraense faria um ano só em julho).

Até mesmo a declaração errada que João Augusto fez no BO, dando como seu domicílio apartamento em um prédio no qual deixara de morar havia cinco anos e onde Mônica jamais fora.

Não há motivo para o inquérito policial continuar a transcorrer sob sigilo. Há muito motivo para a sociedade continuar a se interessar por essa trágica história, mesmo que a imprensa, surpreendentemente, há três dias não publique uma linha sequer a respeito.

Discussão

7 comentários sobre “Caso da juíza: por que o sigilo?

  1. Reino da Dinamarca.?

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    Publicado por Agenor Garcia | 24 de maio de 2022, 03:01
  2. Esse juiz deve ter faltado às aulas de direito penal e processual penal.Como foi aprovado nessas matérias na faculdade e como foi aprovado para o concurso de juiz de direito se demonstrou total desconhecimento de 2 matérias importantíssimas?Eita Brasil velho de Mãe Preta e Pai João.
    PS:A cidade é Campina Grande e não Campo Grande como consta no texto.

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    Publicado por Wilton Almeida | 24 de maio de 2022, 13:24
  3. Ele desperta sobre si a clara suspeita de feminicídio. Esperamos que haja pressão popular e a devida investigação sobre a morte da juíza.
    Att,
    A Escola Feminista.

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    Publicado por Escola Feminista | 23 de junho de 2022, 10:57

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