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Estrangeiros, Fazendas, Governo, Igreja, Justiça, Memória, Militares, Pecuária, Pistoleiro, Polícia, Política, Segurança nacional, Sindicato, Terras

“Gringo”: livro 42 anos depois

Texto de Rogério Almeida

Os anos de 1980 são considerados os mais letais na luta pela terra no Pará. Sequestro, tortura, assassinados e chacinas faziam parte da Doutrina de Segurança Nacional do Estado, onde a coerção pública e privada imperavam contra os posseiros e seus aliados. 

Raimundo Ferreira Lima, mais conhecido como “Gringo” foi executado por pistoleiros no dia 29 de maio de 1980, quando somava apenas 43 anos, em São Geraldo do Araguaia, sudeste paraense. Além de sindicalista em Conceição do Araguaia, Lima era agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Junto a outros companheiros, Gringo empenhava esforços em tomar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais das mãos dos pelegos. Tomar os sindicatos era uma das pautas da época do movimento camponês, o que ficou conhecido como Oposição Sindical. Neste período o major do Exército, Sebastião de  Moura, Cuiró, pregava o terror contra camponeses e seus apoiadores, em particular contra religiosos.

Gringo foi o primeiro dirigente sindical assassinado na região marcada pela aguda disputa pela terra no sudeste e sul do estado do Pará. Trata-se da região mais violenta do país no que tange à luta pela terra. Após Gringo foram executados membros da família Canuto, a exemplo de João, e em seguida o também dirigente sindical e poeta Expedito Ribeiro na cidade de Rio Maria. 

Registro da revista Pará Agrária da época sobre violência no campo do Pará. 

Mais de 40 anos após a execução de Gringo as matanças de dirigentes sindicais, ambientalistas, defensores de direitos humanos e camponeses permanece como marca indelével do avanço do grande capital sobre a fronteira amazônica. 

O caso mais recente recai sobre a chacina da família José Gomes, conhecido como “Zé do Lago” (61), a esposa Márcia Nunes Lisboa, (39) e a filha de 17 anos, Joane Nunes Lisboa, ocorrida em São Félix do Xingu em janeiro deste ano.  Em 2017 as policiais civil e militar assassinaram na cidade de Pau D´arco 10 camponeses da Liga dos Camponeses Pobres (LCP). E, em seguida, mataram a principal testemunha do caso, o igualmente camponês Fernando Araújo dos Santos em janeiro de 2021.

Os anos da década de 1980 são considerados os mais violentos nas margens dos rios Araguaia-Tocantins. Anos da criação da União Democrática Ruralista (UDR), braço armado dos ruralistas.

A organização foi articulada pelo médico e ruralista Ronaldo Caiado. Hoje, novamente, governador do estado do Goiás. A UDR assina inúmeras ações de violência que ceifaram a vida de posseiros, sindicalistas, agentes pastorais, advogados e dirigentes sindicais.

Neste processo de coerção em oposição à luta pela terra amontoam-se militares de todas as estirpes e patentes, das forças armadas, relevo ao Exército, e as policias civil e militar.

Naqueles tempos o ambiente era tomado pela doutrina da segurança nacional. Tensão agudizada por conta do episódio da Guerrilha do Araguaia. A militarização imperava, em particular com a presença do Exército.

O principal suspeito pelo sequestro e execução do sindicalista Gringo, ocorrido em São Geraldo do Araguaia, quando o mesmo retornava de evento em São Paulo, recai sobre o fazendeiro Neif Murad, relata uma das edições do boletim Grito da PA 150. Jornal animados por leigos, religiosos e camponeses da região.

A formação de consórcio por parte dos ruralistas para eliminar os seus adversários, assim como hoje, era recorrente. E, ainda as listas de pessoas ameaçadas pelos fazendeiros e políticos da região. No caso de Gringo, suspeitas recaiam também sobre o então deputado estadual, o médico e pecuarista Giovanni Corrêa Queiroz, natural de Minas Gerais. O mineiro, desde sempre, integrou a “bancada do boi”.

Mais tarde a viúva, Maria Oneide Costa Lima, e outros agentes pastorais, após o assassinato do sindicalista, passaram a receber ameaças, e cartas anônimas colocadas sob a porta da casa pastoral, e ameaças de servidores do Grupo Executivo das Terra do Araguaia Tocantins (Getat) – instituição sob a tutela do Exército – como alerta a edição de nº 27 do Grito da PA-150. O nome de Gringo hoje nomeia uma escola pública em São Geraldo do Araguaia e o caso sobre a sua execução nunca foi a julgamento.

Violências – O boletim Grito da PA 150 ressalta ainda um episódio considerado um dos mais violentos contra os religiosos engajados na luta junto aos posseiros. No dia 31 do mês de agosto a Polícia Federal prendeu 13 posseiros do município de São Geraldo do Araguaia e os padres franceses Aristides Camilo e Francisco Gouriou sob a acusação de incitação à desobediência civil.

“Tudo indica que o ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel, com base no inquérito realizado pela Polícia Federal e instruído pelo Departamento Federal de Justiça, avaliou que a presença dos religiosos é “nociva” aos interesses e segurança nacionais, e sugeriu a expulsão de ambos”.  

Ativistas da época contam que a prisão dos religiosos provocou uma grande mobilização. Consta no rol de atos realizados pela soltura deles ocupar a procissão do Círio de Nazaré com faixas e cartazes pedindo a soltura dos missionários. Prender e torturar fazia parte do modus operandi dos agentes do regime. Na década de 1970, quando a agenda residia em sufocar a Guerrilha do Araguaia, o padre Roberto de Valicourt passou por experiência semelhante.  

Tem-se neste contexto o papel autoritário do Estado, e associação do mesmo com frações de classe do país e o grande capital nacional e internacional na apropriação de vastas extensões de terra na Amazônia. Bancos Econômico, Bradesco, Bamerindus e a empresa Volkswagen figuram como alguns beneficiários. Além de várias famílias das elites do Centro Sul do país. Muitas delas presentes na região, ainda hoje. A animar novos conflitos, execuções e chacinas.  

A saga de Gringo, João Canuto, Expedito Ribeiros, Irmã Dorothy, Padre Josimo Tavares, Paulo Fonteles, João Batista, Gabriel Pimenta, dentre outros, integra projeto de extensão da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) sobre a luta pela terra na Amazônia. O livro deve ser lançado ainda em julho deste ano.

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