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Agricultura, Agronegócio, Ciência, colonialismo, Colonização, Desmatamento, Ecologia, Extrativismo, Floresta, Madeira, Pecuária

O valor da Amazônia

Em 1977, há 45 anos, portanto, analisei a visão de uma das maiores autoridades mundiais em agricultura nos trópicos úmidos sobre a melhor maneira de ocupar e utilizar os recursos naturais da Amazônia. Ao seu estilo, enfático e categórico, quase arrogante (mas não como algumas das estrelas nacionais e internacionais do debate), sustentada por seu inegável conhecimento teórico e prático, o doutor Paulo de Tarso Alvim defendia a substituição de florestas nativas em certas áreas, consideradas por ele mais adequadas à agricultura comercial. Contestei suas teses e travamos um debate,

Reproduzo-o, em etapas, devido ao seu tamanho, porque de vez em quando tenho a sensação de que caminhos em círculos na busca pela compreensão da Amazônia. E alguns desses caminhantes, mais seguros de si e de sua ciência, mais metropolitanos e globalistas, acabam mordendo o próprio rabo nesse circuito desenfreado, com a presunção de bwanas do saber sobre a região.

O desvio da competência amazônica para fora da região não se deve exatamente pela menor capacidade dos nativos, embora os doutores dos centros mais avançados da ciência ainda mantenham a visão colonial de que não há história na Amazônia e sua inteligência não seja capaz de responder satisfatoriamente aos enormes e complicados desafios da contemporaneidade.

Com o anêmico orçamento das instituições de pesquisa locais, é claro que essa anomalia se manterá. Esse descompasso entre as transformações concretas que se processam velozmente na fronteira e o conhecimento dos que nela vivem gera um vácuo de compreensão que impede a participação criadora da inteligência regional. E consolida, por detrás de retórica ambientalista, o modelo exógeno (metropolitano, colonial, de outland) do desenvolvimento que a Amazônia segue.

O dinheiro aplicado na sofisticação das explicações apresentadas para manter os enclaves de extração de riquezas naturais enviadas para os mercados externos está formando mentalidades sutis, porém efetivas. Observe-se que um entusiasta defensor desse modelo, ao enumerar os novos cultivos da grande agricultura (o agronegócio atual) não citou a soja, que hoje lidera a pauta de exportações. Nem o doutor Alvim podia imaginar que a tragédia já estava sendo preparada.

Publico a primeira parte do artigo a seguir.

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Com 25 milhões de quilômetros quadrados, os trópicos úmidos cobrem quase 1/6 de todos os continentes. Somente os oito milhões de quilômetros quadrados de terras tropicais nas Américas do Sul e Central equivalem “a mais ou menos à metade do total de terras cultivadas pelo homem em todo o mundo”. Mas no momento “somente uma pequena fração desta imensa área está sendo utilizada para fins agrícolas”.

Esta “ociosidade” preocupa o diretor científico da Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Canavieira), Paulo de Tarso Alvim. Num trabalho divulgado neste ano (“Floresta Amazônica: Equilíbrio entre Utilização e Conservação”), ele propõe a expansão da agricultura às regiões tropicais úmidas. Lembra que as áreas tropicais de apenas seis países da América do Sul (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Venezuela) têm no conjunto “aproximadamente 3 ou 4 milhões de quilômetros quadrados de terras potencialmente utilizáveis para fins agrícolas ou silviculturais. Essa área – segundo Alvim – “representa cerca de cinco vezes a superfície total que está sendo ocupada pela agricultura nesses 6 países”.

Embora potencialmente utilizáveis, com capacidade de dobrar a produção mundial de alimentos, essas áreas estão praticamente “vazias”, permanecendo mais na condição de reserva do que fonte produtiva, ainda que justamente aís sejam mais intensas as atividades biológicas e a produtividade primária dos ecossistemas alcança seus valores mais elevados. Estaria formada assim uma situação paradoxal: “Por que esse ambiente tremendamente produtivo sob o ponto de vista biológico produz tão pouco sob o ponto de vista econômico?”, pergunta Alvim.

Ele aponta dois tipos de fatores causadores do limitado desenvolvimento da agricultura comercial nas regiões tropicais úmidas: um de sentido ecológico, devido à baixa fertilidade dos solos e a excessiva precipitação pluviométrica; e outro cultural, “pela dificuldade do homem em desenvolver sistemas de produção adequados para esse tipo de ambiente, ou a falta de um programa eficiente para introduzir esses sistemas na região”.

Boa parte dos conservacionistas concluiria desse quadro que é necessário manter preservada a floresta, nela realizando o mínimo de atividade econômica, mas Alvim considera essa concepção de conservação equivocada e sugere uma expressão mais adequada: “o manejo dos recursos do ambiente com o propósito de obter a mais alta qualidade sustentável de vida humana”. Ele procura mostrar que não é apenas possível desenvolver cultivos agrícolas compatíveis com as condições originais da floresta, mas que também já se dispõem dos primeiros conhecimentos e experiências que realizam essa harmonização.

Ele aponta uma série de projetos promissores com as culturas de cacau, arroz, dendê, silvicultura, castanha-do-Pará, borracha e pastagens, que procuram responder “ao maior desafio feito aos cientistas que trabalham em agricultura nos trópicos: “encontrar novos sistemas de produção ecologicamente adequados para a região”. Eventualmente essa busca – adverte logo Alvim aos que se escandalizarão – haverá de conduzir o homem “a um novo estado de equilíbrio com o ambiente e sem dúvida requererá a substituição das florestas naturais por outras comunidades vegetais, em áreas selecionadas”.

Seria o caso do cacau, que disporia de uma área de um milhão de hectares de solo fértil inteiramente favorável – e onde a floresta nativa poderia ser substituída com vantagens. E até mesmo das pastagens, se forem comprovadas pesquisas pioneiras demonstrando que “algumas espécies de pastos tropicais são quase tão eficientes como as plantas leguminosas na fixação de nitrogênio”.

As teses de Paulo de Tarso Alvim, em muitos pontos heterodoxas e inovadoras, são, por isso mesmo, discutíveis e polêmicas. Seu grande propósito é “demonstrar que a agricultura comercial nos trópicos úmidos não é algo tão desencorajante ou misterioso como algumas pessoas parecem pensar”.

Ele esclarece que mesmo defendo a necessidade de promover o desenvolvimento agrícola na Amazônia não pretende deixar a impressão “de que subestimo a importância de preservar a gigantesca reserva de germoplasma dos trópicos”. Mas contrário às teses sobre a intocabilidade da floresta, acha que deve ser respondida uma questão fundamental: “Se a vegetação natural cresce exuberantemente nos trópicos úmidos, apesar dos seus solos pobres, por que o homem não será capaz de idealizar comunidades de plantas que imitem o ecossistema natural em seu crescimento sob chuva intensa, mas ao mesmo tempo produzindo algo de interesse econômico para a humanidade?”.

Não há dúvida quanto à vantagem de transformar uma parte (não uma qualquer, mas a verdadeiramente apta) da Amazônia em um bem econômico. Não é apenas o problema mundial da alimentação que coloca em questão a preservação da floresta como um museu de ciências naturais, mas os próprios dramas brasileiros. Contudo, uma das principais falhas das teses do dr. Alvim é subordinar essa necessidade de aproveitamento econômico exclusivamente à agricultura comercial; Ele tem razão em declarar, como a maioria dos economistas, que para o desenvolvimento agrícola nos trópicos “é essencial que a agricultura seja cada vez menos de subsistência e mais do tipo comercial, isto é, orientada para a produção de colheitas que possam ser colocadas nos mercados”. Mas se equivoca por não examinar os dados sobre o uso do solo (numa falha típica dos pesquisadores do meio ambiente que o dissociam dos fatores econômicos e muitas vezes também dos sociais).

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

Um comentário sobre “O valor da Amazônia

  1. Hoje é sabido que a água aí tem importância muito maior que germoplasmas.

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    Publicado por Paulo, | 8 de agosto de 2022, 07:11

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