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Agricultura, Agronegócio, Ciência, colonialismo, Colonização, Desmatamento, Ecologia, Estrangeiros, Extrativismo, Floresta, Jari, Pecuária

O valor da Amazônia (2)

(Concluo o artigo de 1977, que comecei a transcrever na semana passada)

As proposições de Paulo de Tarso Alvim se dirigem para a grande empresa, a única capaz de conduzir os plantios comerciais com as técnicas sugeridas e nas dimensões estabelecidas, inclusive porque o apoio governamental se concentra nelas. Porém, mesmo as estatísticas oficiais disponíveis demonstram que esse tipo de política pode aumentar as divisas de exportação, sem, contudo, promover o desenvolvimento rural,

[Excluí a citação de dados estatísticos da época, produzidos pelo Incra, com base no seu cadastro, que confirmam essa tese, para não estender demasiadamente a reprodução do artigo.]

Ao contrário do que insinua o dr. Alvim, as pequenas propriedades em conjunto (justamente as dedicadas às culturas de subsistência) não apenas produzem mais desses bens: também colocam maior volume de alimentos no mercado. Assim, enquanto venderam uma produção no valor de 103 milhões de cruzeiros, as grandes propriedades (com área acima de 10 mil hectares) só comercializaram 18,5 milhões.

Diante desses dados – e de todos os demais da melhor fonte sobre a estrutura agrária brasileira, o recadastramento do Incra – certas afirmações do dr. Alvim perdem substância. Interessa mais à Amazônia que os pequenos produtores sejam apoiados firmemente pelo governo para que consigam comercializar suas safras do que abrir a região às plantations. Elas, evidentemente, oferecem vantagens, todas decorrentes do melhor uso da tecnologia que o seu capital lhes proporciona. Mas não se pode esquecer que suas atividades econômicas antecedem as pesquisas, muitas das quais o dr, Alvim cita, mas sobre as quais não pode dar uma notícia final.

Não se pode garantir – porque não há uma política nesse sentido – que elas serão aplicadas, mesmo que questionáveis. O dr. Alvim pode achar excelente o plantio artificial da Jari [um grande projeto de celulose e caulim do milionário americano Daniel Ludwig] em Almeirim, mas outros cientistas poderiam considerar que as manchas de terra roxa cobertas por pinus e gmelina seriam mais bem utilizáveis para a produção de alimentos (a Jari diz que há terra roxa nessas áreas de reflorestamento, mas o dr. Alvim garante que são miseráveis oxissolos).

É inegável que o projeto de cacau é uma boa opção para a Amazônia e que o arroz (como outras culturas de ciclo curto) é excelente para as várzeas. Mas pergunta-se: quantos agricultores poderão repetir a experiência do Jari? Preocupa-se o governo com a difusão dessa tecnologia? Ou acha que basta o acesso de um grande produtor?

À exceção do cacau, a nenhum dos demais cultivos agrícolas citados pelo dr. Alvim têm acesso os pequenos produtores (em conjunto, responsáveis pelo abastecimento de alimentos da região – e, se ajudados, também de outras regiões). Fazendo boas propostas ecológicas, o cientista assume o risco de – não examinando a estrutura de uso do solo e a política agrícola em execução – acabar favorecendo a “africanização” da Amazônia, no sentido de que haverá uma exploração semelhante, através de propriedades do tipo das plantations.

Há ainda outros pontos discutíveis das teses de Paulo de Tarso Alvim. Se ele superestima as pesquisas de tecnologia agrícola, dando por definitivos alguns resultados ainda parciais, subestima as pesquisas sobre a degradação do meio ambiente. “Não há necessidade, por exemplo, de exagerar os efeitos do desmatamento sobre a ecologia ambiental ao predizer mudanças que realmente não ocorrem, como ‘a diminuição da concentração de oxigênio na atmosfera, a ‘diminuição das chuvas’, a formação de 1veidadeiros desertos’, o ‘desaparecimento’ de rios e outras consequências imaginárias que carecem de fundamento científico”, diz ele.

Assim, de forma arbitrariamente anticientífica, o dr. Alvim transferiu ao terreno da ficção pesquisas realizadas com seriedade e que, não sendo por acaso verdadeiras, merecem ao menos contestação mais explícita. Afinal, o limnologista alemão Harald Sioli parece ter provado que o desmatamento afeta os cursos d’água e até mesmo as fontes subterrâneas.

Não se pode desprezar a influência da derrubada de árvores sobre as precipitações pluviométricas, ao menos enquanto o Cena (Centro de Energia Nuclear aplicada à agricultura) não der uma resposta. Nem podem ser minimizados os resultados obtidos por Wilhelm Brickman quanto aos efeitos da erosão causada pelo desmatamento.

É estranho que o sr. Alvim, considerando os “exageros” dos ecologistas (sua generalização é absolutamente inaceitável, pois junta valores diversos), recaia em alguns dos erros apontados. Ao fim do seu estudo, ele conclui que o solo “é o principal recurso com o qual nos devemos preocupar” e sugere que a única solução para uma ampla proteção da flora e da fauna é o “estabelecimento de parques e reservas biológicas”.

Assim, ele isola o solo do seu ciclo, fora do qual – até exaustiva prova em contrário – se degenera. O dr. Alvim precisará provar que na grande maioria das áreas amazônicas o solo independe das árvores. E também acaba caindo no erro dos preservacionistas, defensores da criação de santuários para a flora e a fauna que acabarão sendo destruídos pelo avanço da atividade econômica.

É difícil resumir uma discussão que é vasta e, talvez, no momento, inconclusa.

As propostas do dr. Alvim têm o mérito de mostrar a necessidade de fazer da Amazônia um instrumento da melhoria das condições da sua população. Mas, tanto quanto sob o extrativismo, uma atividade ecologicamente de acordo com o ecossistema, como sob grandes plantações e fazendas, talvez afinadas com o “modelo substitutivo” do sr. Alvim, sua população não foi nem está sendo beneficiada.

(Publicado no site Amazônia Real)

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