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Economia, Energia, Estrangeiros, Grandes Projetos, Hidrelétricas, Minério, Multinacionais

Grandezas e misérias paraenses (1)

(Texto de 2004)

O Pará começou a primeira década do novo milênio produzindo pouco mais de dois bilhões de dólares em minérios, destinados quase integralmente à exportação. Chegará ao final desta primeira década do século XXI com o produto mineral próximo da marca de US$ 10 bilhões, vendido praticamente todo no mercado externo.

Trata-se de um desempenho impressionante. Seria como se o PIB mineral do Estado dobrasse a cada dois anos no decênio. No começo da década de 2010 o Pará passará à frente de Minas Gerais, o maior minerador brasileiro ao longo dos últimos três séculos. Mas não só isso: a importância do Estado em 12 commodities se tornará mundial.

O que está ocorrendo no Pará é um verdadeiro boom. O mais inusitado nessa corrida é que ela é definida por um único competidor, a Companhia Vale do Rio Doce, que chegou à Amazônia como estatal e agora é uma empresa privada. O faturamento da Vale é maior do que o do governo do Estado. Sua verba de investimento, especificamente, está muito além da soma dos recursos de capital da administração pública. Ao longo desta década a CVRD deverá investir 5,5 bilhões de dólares (quase 17 bilhões de reais) no Pará, valor que representa mais de um terço do PIB do Estado. Em quatro anos, completados em 2004, a Vale executará um terço desse orçamento.

Essa grandeza se baseia na exploração de 12 bens minerais. Até agora, a maior fonte de receita é o minério de ferro. A produção, neste ano, deverá bater num número recorde em Carajás: 70 milhões de toneladas, três vezes e meia acima da capacidade máxima de viabilidade do projeto de mineração, quando ele foi concebido. Mas em 2010 a receita de cobre, chegando a US$ 2 bilhões, passará à frente da tradicional mercadoria da Vale, que é responsável por um quarto do minério de ferro que circula pelos oceanos.

Em 2010 deverão estar funcionando cinco minas de cobre em Carajás, que se consolidará, então, como a maior província mineral do planeta. Não só garantirá a auto-suficiência brasileira nesse minério como colocará o Brasil entre os cinco maiores exportadores mundiais.

Para tanto, o investimento nos polos de cobre de Carajás somará US$ 2,5 bilhões. O primeiro a ser ativado, o da Serra do Sossego, começou a produzir em junho, antes mesmo de ser inaugurado, no mês seguinte, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao custo de US$ 430 milhões. A CVRD é dona de todas as jazidas. Além de cobre, como subproduto, produzirá ouro, prata e molibdênio. Voltará a ser a maior mineradora de ouro do Brasil, título que ocupou quando explorava a jazida do igarapé Bahia, também em Carajás, esgotada em 10 anos de lavra.

Carajás não produz, hoje, um grama de níquel, outro dos minérios dos quais o Brasil é carente. Mas em 2010 a produção de níquel em Carajás será três vezes maior do que toda a produção brasileira atual, tornando-se responsável por 15% do valor da produção mineral da Vale no Pará. O níquel do Estado não será falado apenas no Brasil. Como o minério alcança em Carajás um dos mais altos teores já registrados no mundo, ele passará a interessar importadores espalhados por vários outros países.

Esse será o desempenho de dois bens minerais absolutamente novos para a CVRD. Mas a evolução dos produtos mais tradicionais da cesta de mercadorias da empresa não será menor. Em 2007 a produção de minério de ferro alcançará 100 milhões de toneladas em Carajás, que também já é o maior produtor mundial de manganês, com 1,5 milhão de toneladas. Com a nova mina de Paragominas e o surgimento da Alcoa com um projeto de mineração próprio, em Juruti, o Pará subirá um degrau, tornando-se o segundo maior produtor mundial de bauxita, abaixo apenas da Austrália.

Mas poderá passar a Austrália em matéria de alumina, a etapa seguinte na transformação do minério, assumindo o primeiro lugar. E estará entre os cinco maiores produtores de alumínio, se os projetos anunciados – de expansão e de uma nova indústria, a da Alcoa – forem realizados. O Pará se consolidará também como o terceiro maior produtor mundial de caulim, argila utilizada no revestimento de papéis especiais.

Em 2010, o Pará, que hoje é o sétimo maior exportador do Brasil e o quinto em saldo de divisas, poderá estar gerando US$ 8 bilhões líquidos para as contas externas nacionais, uma contribuição que apenas duas ou três outras unidades da federação também poderão dar.

Mas enquanto representa quase 80% do valor do comércio internacional paraense, a produção mineral tem papel pouco expressivo na formação da riqueza interna. A mineração entra atualmente com 4% da receita estadual de impostos, graças às isenções e vantagens concedidas pela União aos exportadores de semi-elaborados. Mesmo com a quintuplicação do valor da produção na década, o peso da mineração será de 18% da renda tributária em 2010, segundo estimativa do governo do Estado.

O Pará, que é o 16º em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), mesmo tendo o segundo maior território e a 9ª população brasileira, não avançará muito nesse item se depender do boom mineral, que provoca crescimento, mas não – ou só raramente, graças a outras variáveis, desde que elas sejam criadas – desenvolvimento. Assim, o Pará parece fadado a ocupar seu lugar no firmamento mineral sujeito à mesma circunstância dos países que o antecederam no pódio: ficar grande, sem ficar rico.

Discussão

Um comentário sobre “Grandezas e misérias paraenses (1)

  1. Lúcio, boa tarde. Já começarão a explorar petróleo aqui próximo do nosso estado. Será que o gás de cozinha vendido aqui no Pará apresentará alguma redução de preço? Acredito que não.
    O Pará vai continuar sendo um pobre estado rico, pelo jeito.

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    Publicado por Rafael Araújo | 24 de novembro de 2022, 12:42

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