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Imprensa

Jornalismo de combate

Escrevi muitos livros. Sozinho, mais de 20. Vários outros foram obras coletivas. Sempre os apresentei como livros de jornalismo. Diante de tal declaração, há os que torce o nariz e fecham de pronto o volume. Muitos acadêmicos, por exemplo. Eles não utilizam matérias jornalísticas nas suas bibliografias. Supõem que dessa maneira se protegem de menções que os desvalorizariam. Não deixam de ter alguma razão.

Quando submetida ao teste de consistência, a enorme produção jornalística se desfaz. Muito dela não resiste a uma checagem mínima quanto à sua exatidão ou relevância. Ou mesmo à sua coerência e lógica interna. Com essas deficiências, porém, o jornalismo é essencial para a vida dos cidadãos e fonte necessária para sua história. Basta-lhe ir de carona na dinâmica do cotidiano, atrelado às mutações do dia a dia, sintonizado com a andança do tempo.

Não importa que o jornalista de vez em quando se desequilibre, vá ao chão e saia com escoriações generalizadas. A história segue a alta velocidade e fazendo zigue-zagues. Mesmo um acompanhante poderoso não consegue dar conta do recado. Sem ele, porém, o percurso perderia algumas de suas marcas necessárias, dos seus sinais de alerta. Ainda mais em áreas de fronteira, como a Amazônia, nas quais se pode passar do zero ao infinito num intervalo de tempo muito mais curto e fulminante do que nos centros já consolidados.

Sem o jornalismo, a agenda dos cidadãos pode ser privada de informações fundamentais para definir os seus atos, a sua presença e a sua própria razão de ser. E a sua possibilidade de fazer história, que sempre existe, mas nem sempre oferece a recorrência.

Meus livros, agregando textos já publicados na imprensa cotidiana a criações específicas para cada nova obra, elaborações mais pensadas para um leitor supostamente menos apressado, é uma opção explícita por um jornalismo, assumido até as suas últimas consequências, ciente das suas deficiências, comprometido com todas as suas possibilidades.

Nessas consolidações da produção inevitavelmente acelerada, obrigada a responder ao dia a dia dos acontecimentos, convido meu leitor a submeter este jornalismo ao teste de consistência mais rigoroso.

Claro que meu convite só será aceito se o leitor se interessar pelo que as páginas do livro contêm. Se houver a motivação, resultante de uma combinação de fatores – a clareza do texto, o tema da narrativa, o encadeamento dos fatos, a fruição argumentativa –, mesmo que o leitor não concorde com as ideias apresentadas, é provável que consiga relacionar o conteúdo da narrativa à sua própria vida. Assim poderá tirar dela uma contribuição para sua ação, e, com melhores ferramentas intelectuais, ultrapassar o conhecimento e a percepção do autor dos textos aqui reproduzidos.

Se assim ocorrer, a função e a missão do jornalismo estarão realizadas: colocar as pessoas diante da realidade. Cada qual encontrando seu lugar, que trate de pôr em prática sua vontade. Esta é a melhor herança da polis dos fundadores do nosso modo político de ser, os gregos antigos.

Grande parte do que reuni para publicação no formato de livro, na presunção de ser ele mais resistente e permanente do que as páginas da imprensa cotidiana, saiu antes no meu Jornal Pessoal, quinzenário que escrevi e editei, sozinho, em Belém, ao longo de mais de 32 anos, entre 1987 e 1992.

Minha intenção sempre foi tentar mostrar como o significado de acontecimentos isolados se aclara, como fatos de aparência desconexos se ligam, e, também, como é árduo conseguir saber o que está acontecendo diante dos nossos olhos, sem que muitas vezes os consigamos sequer ver (dentre outros motivos, porque a percepção da realidade concreta – conforme o fecundo conceito-matriz de Marx – exige o uso das lentes da ciência mais atuais, de vanguarda, na Amazônia).

Como a informação continua a ser poder, e é cada vez mais poder, ela não é oferecida “grátis” na rede mundial de computadores. Às vezes chega-se a ela tateando pelo sempre problemático método de ensaio e erro, ou tendo que pôr abaixo uma montanha de press-releases, afastando balões de ensaio ou tangenciando dogmas e mitos.

É muito fácil e cômodo, de posse de uma teoria explicativa, passar a aplicá-la a torto e a direito sobre toda e qualquer realidade, que mais se induz do que se deduz, sem qualquer forma efetiva de aproximação dialética, que não seja a retórica ou formal, por isso mesmo mecânica.

A Amazônia é a vítima do imperialismo e o produto do colonialismo. Sob essa sentença, tudo mais se ajusta e está entendido. Tenho a pretensão de mostrar, com a minha produção jornalística, que chegará a 57 anos dentro de dois meses, que não é bem assim. E ainda que fosse assim, há um caminho a percorrer entre o zero e o infinito, do estabelecimento do imperialismo ou o colonialismo na jungle à sua saída ou expulsão, sabe-se lá quanto tempo depois (se “depois” moral positivo houver).

Nesse interregno, milhões de pessoas terão que viver cada dia e enfrentar todos os seus desafios, para os quais frequentemente precisam mobilizar todo seu saber e talento. E acreditar que com seu uso irão melhorar de vida.

Mas qual se, a pretexto de realizar o grandioso fim último da história, a ignoramos até lá, em sua concretude e especificidade, na soma de labores e suores que a constitui. Há amazonólogos às pencas espalhados pelo país e o mundo inteiro, porque o esquema explicativo já está pronto. Basta aquecê-lo no micro-ondas do saber e servi-lo.

Enquanto isso, batalhas e mais batalhas deixarão de ser enfrentadas por falta de informações sobre a complexidade dos processos e a intrincada rede de conexões internacionais, que emergem nas rústicas e (só na aparência) provincianas – ou primitivas – paisagens amazônicas.

O dia a dia dos empreendimentos de ocupação, que é o nome verdadeiro dos “grandes projetos”, é muito complexo mesmo. Nenhuma de suas engrenagens funciona ao acaso ou isolada. Às vezes um sopro no meio da mata tem como origem um vendaval lá fora. Especialmente nos setores produtivos mais internacionalizados, como a geração de energia, a mineração e a extração florestal, a complexidade desafia as mentes mais sagazes e as capacidades intelectuais mais bem articuladas ou organizadas. A porta do entendimento desses processos é lacrada e só se abre com acesso a um código sofisticado.

Mantenho a esperança de que o leitor partilhe a sensação que tenho quando releio todo material e seleciono os artigos a republicar. Eles parecem ter o mesmo significado das pedrinhas para o João e a Maria da inevitável lenda dos irmãos Grimm das nossas infâncias. Um leitor muito mais exigente pode reagir alegando que no lugar das pedrinhas eu semeei miolo de pão, que um pássaro faminto tratou de engolir, desfazendo o caminho de volta dos dois irmãos perdidos na mata.

Neste caso, requeiro ao leitor a gentileza de me alertar e contribuir para que eu busque as pedrinhas devidas, se de tal tarefa puder me desincumbir. É assim que se dialoga, se polemiza e se avança. Juntos, muito melhor do que sozinhos.

A Amazônia precisa com urgência dessa relação – digamos assim – heurística ou gnoseológica. Não pode ser tratada apenas à base de caldo de galinha ou sanduíche “natureba” do cardápio das trivialidades autossuficientes, das sentenças refratárias à elucidação, do triunfalismo salvífico dos profetas do vazio.

Nem pode também ser deixada à sanha dos seus colonizadores, seja o madeireiro rude, que põe abaixo enormes árvores centenárias sem um ai de inteligência ou sensibilidade, como a multinacional planetária, que derrama glacê colorido e vistoso sobre suas vilanias.

É preciso haver uma base material comum a todos, os que põem em prática o modelo atual de ocupação e integração, à base da pilhagem, e os que perseguem uma forma alternativa, sob utopias ainda vagas, como o desenvolvimento sustentado. Essa base comum são os fatos, as informações. Não os penduricalhos da internet ou a louçania dos press-releases, mas aqueles dados que emergem ou são filtrados dos documentos e dos próprios atos que materializam as filosofias e os programas e projetos.

Quem não torcer o nariz nem fechar o volume à mera menção da expressão malsã, jornalismo, poderá encontrar nessa fonte informações que não verá em nenhuma outra publicação. Talvez se defronte com uma forma original de interpretar essas informações clandestinas, que são desconhecidas, manipuladas ou permanecem escondidas em caixas-fortes corporativas ou nos cofres embutidos na parede floreada de uma elite que despreza a participação coletiva.

Ao chegar a algumas dessas informações, depois de uma penosa e demorada investigação (esta, a razão de ser de todo e qualquer jornalismo), tomei um choque, seguido de outro abalo ao juntá-las a outros nós soltos ou a peças de intrincados quebra-cabeças, muitos dos quais ainda não consegui montar (mas não desisti do trabalho).

Só para dar um exemplo. Durante muito tempo fiquei intrigado: por que a maior empresa privada brasileira, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a segunda maior mineradora do mundo, a maior do continente, a principal fornecedora de dólares para o Brasil (à custa da exaustão de riquezas naturais do Pará), sabotou e sufocou sua empresa internacional de navegação, das melhores do mundo, a Docenave? Por que esse estrangulamento aconteceu depois que a estatal foi privatizada, em 1997? Por que tal destino se deu, apesar de perdas de bilhões de dólares para as contas nacionais?

Tenho algum orgulho profissional de dizer que meu distinto leitor não encontrará a resposta em nenhum lugar do mundo cibernético. É no jornalismo que a localizará, ainda que apenas esboçada. E é muitíssimo importante. Mesmo que poucos lhe deem a devida atenção.

É uma resistência simbólica, que não me deixa acatar o novo nome de fantasia da empresa, simplesmente Vale. Talvez para sepultar de vez uma história terrível, ainda tão recente, mas já envolta por brumas artificiais, fabricadas pela máquina de relações públicas, marketing e jornalismo domesticado da corporação.

Leitores que não se ligam na sequência dos números que apareceram em 32 anos de Jornal Pessoal, preferirão passar por cima deles para pousar seu raciocínio em conceitos e diktats absolutos, que dão a certeza de um catecismo secular. Quando tenho a oportunidade, peço a essas pessoas que se permitam seguir a trilha dos números, realizando o rito interpretativo, até estarem convencidas da verdade ou, pelo contrário, se sentirem provocadas a procurá-la em outro lugar, em rumo próprio.

É sedutora a tentação de subir num palanque ou numa banca de debates e proclamar conclusões sobre a Amazônia. Depois de mais de meio século nesse circuito, já não reajo com a bonomia de antes ao decálogo dos iniciantes. Exijo que apresentem tempo de serviço dedicado à “causa”.

Se não são gênios, nada poderão dizer de enfático sobre a Amazônia se não tiverem anos de peregrinação por estradas pedregosas, reais ou simbólicas, como as que se apresentam disfarçadas em balanços, atas, estudos de viabilidade e projetos, ou se exibem como esfinges em solos, subsolos e “sobressolos”, se me permitem um dedinho mínimo de Guimarães Rosa ao tucupi. Ou na pobreza dos marginalizados, na violência dos desassistidos e numa algaravia de criminalidades, das que são praticadas com um revólver 38 às que são urdidas nos livros dos cartórios de registro de imóveis, onde um simples golpe de mão transfere – do patrimônio público para a propriedade de particulares – imensas extensões de terras, do tamanho de países.

A Amazônia, como a arte, é resultante de 99% de transpiração, ou até mais, se Picasso cunhasse a frase nestes trópicos úmidos, suados e sofridos de Lévy-Strauss, intérprete da nossa melancolia, doce e imobilizadora.

Às vezes ao fazer a releitura dos artigos, sou tentado pelo pecado da luxúria combinada com a hipérbole da pretensão: será que meus textos não podem servir de fio condutor da voz amazônica, a ser transmitida a auditórios mais amplos, como o desta reunião promovida pela ABI?

Embalado pelo impulso, continuo a escrever, mesmo que em um minúsculo blog, atado à rede mundial de computadores, como se fora minha rede cibernética de caboclo branquela, organizo livros (cada vez menos) e os entrego ao leitor, na esperança de que ele possa ajudar a iluminar o horizonte, mesmo que seja pelo tempo instantâneo de um relâmpago, de um raio de jornalismo, que tem o céu como horizonte. E limite.

É interessante o que acontece com a Amazônia. Sua bibliografia tem um número excepcionalmente significativo de trabalhos teóricos e acadêmicos, em contraste com uma quantidade insuficiente de registros de conjuntura. Daquele tipo de registro que traduz – em quantidade e qualidade – os fatos que se sucedem numa velocidade incrível, empacotada sob o título de conjuntura. Ainda não tem o carimbo da história, mas já é a história em processo, dinâmica, muitas vezes imperceptível, invisível.

Meus textos são anotações feitas no calor da hora, quando a descoberta de novidades e significâncias provoca surpresa, impacto, admiração, perplexidade ou indignação. É impossível não ser testemunha da Amazônia atual sem um componente de paixão. Mas é preciso que esse impulso forte siga as trilhas dos fatos e se oriente pela maior objetividade possível.

Não é neutralidade porque é impossível ser neutro na Amazônia dos nossos dias sem ser perturbado pela sensação de insensibilidade e covardia. Mais do que isso: pela consciência de que se perde uma oportunidade rara de criar, imprimir uma marca pessoal, fazer história com carne, osso e alma.

Sobre a espinha dorsal de textos já escritos adiciono informações, observações e atualizações, quando necessário, e passo o tempo do verbo para o presente sempre que a mudança servir ao melhor entendimento. Assim, com uma produção mais pausada do que na velocidade do front, corrijo eventuais erros de digitação ou alguma inconsistência (ou incongruência) que percebi só depois que a coluna já navegava pelos oceanos digitais. E me apliquei para tornar mais fácil e imediata a compreensão do que escrevi para estudantes, desviados da trilha dos fatos, dos jornais e dos livros.

Com a esperança de que, dessa maneira, talvez, estaremos mais habilitados não apenas a enfrentar os desafios desse rito de passagem, não para a Amazônia devastada de cada dia, mas para a realização da utopia euclidiana: a última página do Gênesis, que o criador deixou em aberto para nós.

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