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Cultura

À memória de Jean Hebette

Jean Hebette foi um personagem histórico, presença marcante na história recente do Pará e da Amazônia. Combinava condições raras. Era atormentado e angustiado pela solidariedade aos mais pobres, desassistidos, explorados e colonizados. Mas nasceu na Bélgica, país europeu que levou a desgraça ao Congo, onde Jean atuou como missionário, sofrendo a dor do dilaceramento entre a razão e a emoção, a herança e a criação. Devia estar do lado dos brancos, como ele. Mas se dedicou aos negros, as vítimas dessa história.

Trouxe o mesmo compromisso para a Amazônia, dedicando sua espantosa energia e infindável fé aos nativos, aos excluídos do novo banquete colonial. Era um homem positivo: queria fazer – e fazia. Era um intelectual rigoroso, paciente na pesquisa, persistente na busca pela realização do objetivo. Queria trazer a realidade violenta da junge para os ambientes acadêmicos e gritar para os privilegiados, os intelectuais (que podem comer três vezes ao dia e trabalhar com a cabeça como ofício), que eles precisavam também ser úteis, sem abdicar um milímetro seu rigor científico. Queria sangue (não apenas simbólico) na anemia (não apenas metafísica). Sua religiosidade o ajudava a cair e levantar, sofrer um golpe e prosseguir, buscar a utopia, não entregar os pontos, não desistir.

Jean buscava seus títulos no confronto da inteligência com a vida, do arsenal de teorias com o universo das coisas ainda inclassificadas, muitas vezes gestadas e mantidas no caos da fronteira selvagem. Homem generoso e amigo, juntou-se a Raul Navegantes para dar ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará uma espada de razão combatente – em nome da ciência, é claro, mas em confraternização com homens de carne e osso, em situações concretas, carentes de explicações e orientações, mas também de pão e água (dieta desses homens quando a combinação dos elementos os leva a uma subversão cultural e à cadeia, dela ao derivativo temido: a morte matada).

Jean e Raul convidaram um simples jornalista por profissão e bacharel em sociologia por formação, como eu, para agitar a calmaria das pesquisas distantes e frias, trazer a atualidade para um ambiente refratário aos sobressaltos das transformações que ainda não se haviam repetido, os fatos sem recorrência, como os acadêmicos gostam de sublinhar. Eles também trabalharam para me conseguir um título de notório saber pela UFPA, para tangenciar minha alergia aos formalismos bem postos.

Quando tudo estava por se consumar, com o reconhecimentos de todos do conselho, um professor do curso de biblioteconomia se opôs a dar o seu parecer. Sua posição foi respeitada e o pedido retirado. Poucos anos depois, no aniversário de um amigo comum, o mesmo cidadão me indagou na roda de convivas por que eu não voltava à universidade, comprometendo o seu apoio para que se reconhecesse o meu notório saber em Amazônia. Lembrei-o então que ele se opusera a essa concessão. Fez-se um silêncio goethiano (ou beethoviano).

Rimos muito, Jean e eu, quando lhe contei o episódio. Mas ele não se conformava com o desfecho. Pediu-me que o autorizasse a nova investida, mas me recusei, Passara oito anos na universidade e fora o suficiente. Preferia, como Jean, estar na rua, no redemoinho, exposto aos elementos, como um sertanejo no sertão do Rosa, em Marabá ou em Altamira, Novo Progresso (ó ironia!) ou São Félix do Xingu.

Jean foi dos melhores e mais íntimos amigos que a vida me deu, apesar dos longos períodos de abstinência nessa relação. Teria bastado, porém, a excursão de um mês que fizemos juntos à Europa, em 1990, para participarmos do Tribunal Permanente dos Povos, em Paris, em sessão dedicada à Amazônia. Foi uma convivência inesquecível por lugares europeus, que teve um dos seus melhores momentos em Amsterdam, na exposição do centenário de van Gogh.

Foi a maior reunião de telas do pintor holandês organizada até hoje. Entramos na abertura do museu que leva o nome de van Gogh e saímos pouco antes do fechamento das portas. Almoçamos no restaurante do próprio museu. “É caro”, alertou Jean. “Quando vamos ver outra vez uma exposição dessas?”, lhe respondi, ambos admiradores do sofrido artista. Comemos filé e bebemos vinho. Quando a pesada conta chegou, mesmo fraco de finanças, puxei-a e a quitei com o que restava do meu dinheiro, feliz e recompensado. Rimos bastante e voltamos a Bruxelas, onde estávamos hospedados na casa de uma irmã de Jean, por conta dele.

Ao saber, ainda a pouco, que ele não está mais entre nós, lembrei desta cena e de muitas outras que ele me proporcionou, amigo de fé e companheiro de lutas sempre, e senti que uma lágrima desceu para saudar o vazio que a falta de Jean Hebette deixa em mim e em muitos mais que tiveram a honra de conviver com ele.

Para quem sempre esteve com Deus, é na companhai dele que, bem sei, Jean se foi, deixando-se ficar em imagens e recordações entre todos nós, amigos e admiradores.

Discussão

14 comentários sobre “À memória de Jean Hebette

  1. Jean viveu intensamente e o seu legado é único. A Amazônia foi abençoada de ter sido a sua segunda casa.

    Lucio, diante da magnitude da sua obra, faz diferença ou não ter sido reconhecido como notório saber pela UFPA?

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    Publicado por José Silva | 12 de novembro de 2016, 22:49
    • Foi uma frustração para o Jean e o Raul, que consideram ponto pacífico o reconhecimento ao notório saber. Foi também negativo para mim naquele momento. Mas logo passou e aproveitei bem essa experiência. No novo encontro com o autor do veto, já era passado para mim e para o Jean (certamente para o Raul também). Por isso rimos da saia justa em que ficara o professor, celebrado no curso de biblioteconomia e no ambiente universitário.
      Não ficou qualquer mágoa, apenas a sensação de que a academia realmente levantou um muro para isolá-la do perigo e da sujeira das ruas. Pouco depois do episódio, pedi meu desligamento da UFPA, onde dava aulas no curso de comunicação social, e voltei às ruas, fisicamente e simbolicamente. É o meu front, a linha de frente de todo repórter. Volto constantemente à UFPA para encontros com alunos, como na semana passada, com os estudantes de direito. Sempre lamentando a existência desse muro.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de novembro de 2016, 13:59
  2. Bela homenagem, pessoas boas e raras deve ser evidenciadas. Realmente, uma perda.

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    Publicado por Erick Matheus | 13 de novembro de 2016, 05:32
    • Aprendi muito com a sua sabedoria, xompeomerimenro e generosidade!

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      Publicado por Denise Spiller Pena | 13 de novembro de 2016, 09:09
    • Obrigado, Erick.
      Uma cena que revela o Jean. Era o lançamento de uma obra coletiva da qual ele participava, com outros pesquisadores do NAEA, acho que o primeiro trabalho dele publicado em livro. Jean o dedicou aos anônimos com os quais teve contato durante a pesquisa (acho que na Belém-Brasília) para tratar da colonização. O reitor (não tenho certeza se o Aracy Barreto) o interpelou de pronto: como um pesquisador universitário podia dedicar seu livro a pessoas anônimas e irrelevantes, apenas por serem o objeto do seu trabalho?
      Esta é uma questão muito mais importante do que parece. Jean sabia que não podia abrir mão do rigor do método científico. Mas basta se contentar em fazer um bom trabalho sem se perguntar pelo seu destino, or identificar a quem vai servir, pelo retorno social desse esforço intelectual?
      Certa vez acompanhei um famoso antropólogo na sua volta à tribo que servira de tema para um antológico livro que publicou. Foi recebido à entrada da aldeia pelo cacique que colocou o dedo no peito do antropólogo e o inquiriu: durante aqueles anos todos que se passaram, o que de concreto ele fizera pela tribo? A resposta era nada. E o bwana voltou à sua aldeia de concreto sem o reconhecimento que esperava encontrar. Tanto que foi à jungle junto com uma equipe de televisão (acho que da TV Bandeirantes) para testemunhar a ovação – que nçao houve.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de novembro de 2016, 14:08
  3. Meus sentimentos e um abraço forte.

    Paloma

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 13 de novembro de 2016, 08:14
  4. Lúcio,

    “À memória de Jean Hebette” e os complementos que vc lançou nos comentários, só reforça a breve conversa que tivemos há pouco na sua postagem “Nova Coluna”.

    …………………………………………
    “….Há uma crise universal de intelectuais públicos, mas o drama amazônico é tão pungente que o silêncio quase geral dói na fotografia….”

    Essa poesia e intelectualidade está guardada melhor que Farinha de Bragança no Paneiro com folha de Guarumã.

    Ninguém vê !!!
    …………………………………………..

    Posso imaginar seu sentimento de perda pela partida do amigo.

    Um abraço.

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    Publicado por Sou daqui. | 13 de novembro de 2016, 16:08
  5. Tenha a absoluta certeza de que a inspiracão e o exemplo que Jean e outros transmitiram em vida a pessoas como você, continua a inspirar e encorajar outros em escala exponencial a partir de textos e veículos como os seus, Mestre.
    Meus sinceros sentimentos pelo amigo e companheiro.

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    Publicado por Marlyson | 24 de novembro de 2016, 08:35
  6. Na sessão solene da Assembleia Legislativa do Estado do Pará, dessa segunda feira, 19/12, o professor Jean Hebete, será reconhecido com o título de “cidadão do Pará” Pós-mortis que foi requerido pelo deputado Airton Faleiro(PT). É uma maneira de registrar na história, além de todas as outras marcas do professor deixou com seu trabalho na Amazônia.

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    Publicado por Elielson Soares Farias | 16 de dezembro de 2016, 22:34

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