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Política

Arquivo JP (30)

Meu pai

(Jornal Pessoal 240, de agosto de 2000)

Se vivo fosse, Elias Ribeiro Pinto teria completado 75 anos no último dia 31 [hoje, seriam 93]. Sem conseguir se recuperar de um derrame cerebral que sofreu em Santarém, ele morreu em Belém no natal de 1985. Lembro-o no momento, mais um, em que meus caluniadores intimam-me a tratar dele. Julgam que assim fazendo me constrangem. Meu pai teria deixado uma má memória, que seus filhos não gostariam de lembrar. Daí meu silêncio.

Enganam-se esses detratores – como quase sempre, anônimos. Não me lembro de algum que tenha assinado nota ou artigo a respeito, assumindo a responsabilidade de provar o que diz. Se meu pai causou prejuízo, inclusive à administração pública, nenhum foi maior do que os danos à família. Ainda assim, o mal maior que nos fez foi ter-se ido tão cedo, aos 60 anos, deixando em nós um sentimento de perda e uma lacuna que jamais serão supridos. A mim, particularmente, sua falta dói até hoje.

A dimensão familiar de sua vida nos pertence, dela não abrimos mão e não vou discuti-la com os açougueiros do Jornal Popular e da propaganda paga petista. O interesse público é de outra ordem. Meu pai não foi um santo. Cometeu seus erros, causou males, numa vida intensa e conturbada. Reconheci isso no artigo que escrevi logo depois da sua morte, publicado em O Liberal. Fiz-lhe minhas restrições quando estava vivo. Mas no balanço dos prós e contras, sua biografia é amplamente superavitária. Um dia darei conta dela, quando a pesquisa que faço me permitir concluir o livro que venho escrevendo sobre ele [espero que o livro que concluí nestes dias esteja pronto antes de setembro].

Panegírico de filho para pai? Nada disso. Meu pai foi um personagem autêntico do seu tempo. Era filho de imigrantes nordestinos que a seca inclemente tocou para a Amazônia, como milhares de outros. Acompanhou o ir e vir da sua família entre diferentes pontos do interior amazônico e a frustrada tentativa de voltar ao sertão cearense, em São Francisco do Canindé. Mas o comércio do “velho” Raimundo não resistiu por muito tempo.

Meu pai trabalhou desde cedo. Estava sempre a relembrar o tempo em que, menino, carregava caroço de algodão para vender. Falou pouco sobre as aulas de inglês que dava, ainda adolescente, a gente mais velha do que ele, em torno de uma longa mesa na casa do meu avô, no bairro da Aldeia, em Santarém. Foi locutor de rádio, fotógrafo e congregado mariano. Aí caiu nas graças do prefeito Adherbal Caetano Corrêa. Pouco depois dos 22 anos, era o “papagaio do prefeito”. Substituía o tímido “seu” Babá na hora em que era preciso discursar nos atos oficiais e solenidades públicas. Papai sempre foi um brilhante orador. Mesmo seus mais renhidos adversários não negavam essa qualidade. Era um prazer ouvi-lo.

Tinha também muito carisma. Era um líder popular. Saber falar bem e ter uma memória invejável o ajudaram a conquistar parcelas crescentes do povo, que não era para ele uma coisa anônima, amorfa, mas pessoas com nome e história, que ele desfiava nos programas de rádio, conquistando, entre os citados, adeptos para sempre. Mas, sobretudo, entre os “arigós”, como os imigrantes nordestinos eram desdenhosamente tratados. Papai foi o primeiro político a assumir a prefeitura de Santarém em nome desses deserdados e discriminados, quebrando a linhagem da elite tradicional do município. Era um oposicionista e, quase por consequência, um populista.

Consolidou essa posição quando, com apenas 26 anos, pediu e ganhou uma audiência com o presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, a capital federal de então. Teve mais um encontro, levando a tiracolo o japonês Kotaro Tuji. Era para conseguir apoio para a instalação da primeira unidade de beneficiamento de juta do interior da Amazônia, dando um passo mais largo para a verticalização do cultivo agrícola que outra categoria de imigrantes, os nipônicos, havia introduzido na região. Sua participação foi decisiva para possibilitar o surgimento da Tecejuta, cujos escombros, na Prainha, são uma advertência sobre o desprezo às lições do passado e os desafios quanto ao futuro do Baixo-Amazonas (que papai se empenhou para transformar em Estado).

O PTB de Getúlio passou a ser sua identidade, mesmo depois do suicídio do presidente (que prometera ir a Santarém inaugurar a fábrica). Com essa mística, se elegeu com folga deputado estadual (o 6º mais votado), trazendo a família para Belém, em 1955. Perdeu, em seguida, a primeira das três tentativas de ser prefeito de Santarém. A história da sua derrota, produto do mandonismo tradicional e do mapismo eleitoral, é bastante conhecida. Quando, afinal, ganhou, foi uma vitória arrasadora, a consagração do “barra limpa”, seu nome de guerra.

Sem mandato, foi designado para a comissão de planejamento da SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia), antecessora da Sudam. Sua posse, em 1959, foi um dos últimos atos públicos do então governador Magalhães Barata. Testemunham os remanescentes dessa época que meu pai teve um desempenho destacado na comissão. Poucos acreditavam que ele havia cursado apenas até o terceiro ano primário (do 1º grau, hoje). Dominava o inglês. Lia muito.

Se deixassem fontes de consulta à mão, rapidamente se tornava quase um especialista no tema, mesmo que com o assunto só tivesse travado contato naquele momento, graças à sua inteligência viva e à sua curiosidade insaciável. Quatro dos seus sete filhos seguiram o jornalismo que ele trilhou como um dos donos e o principal redator do Baixo-Amazonas, jornal que editou em Santarém, entre 1950 e 1954, de bom padrão para a época e o lugar. Bem legível até hoje.

Um dos poucos prefeitos eleitos pelo MDB (o atual PMDB) em todo o país em 1966 (o outro, no Pará, foi o de Santa Izabel), em pleno regime militar, papai pagou caro por ser amplamente minoritário na Câmara Municipal, onde os derrotados na eleição majoritária se enquistaram para lhe dar um combate sem descanso, desde a primeira hora (que ele não avaliou adequadamente). Aproveitaram-se do seu modo caótico de administrar, típico dessa era de populismo.

Uma inspeção com evidente propósito político do Tribunal de Contas do Estado aproveitou as irregularidades constatadas para sustentar o pedido do seu afastamento. Irregularidades que podiam ser contraditadas e, mesmo se mantidas, atenuadas. Nada parecido ao que hoje se vê, a impunidade ao largo pelo curto prazo de prescrição do crime, pela protelação que bons advogados propiciam e pelos furos da lei, além da ousadia e o cinismo crescentes de muitos homens públicos.

Tanto que papai conseguiu um mandado de segurança, concedido pelo então juiz da capital, Manoel Christo Alves (depois desembargador e presidente do TJE), para reassumir a prefeitura. O governador Alacid Nunes deslocou tropa da Polícia Militar para impedir o cumprimento da ordem judicial, atropelando aquele brocado jurídico elementar (ordem judicial cumpre-se, e recorre-se). Houve o confronto desigual. Três populares foram mortos e saiu gravemente ferido o brigadeiro Haroldo Veloso, um herói da Aeronáutica, que apoiou papai apesar de ter sido eleito deputado federal pela Arena, o partido do governo (e m,ais quatro pessoas do povo).

Veloso viria a morrer em consequência do ferimento que sofreu, de baioneta. Do outro lado, nenhum arranhão. Foi um massacre. Papai escapou porque mulheres fizeram um cordão de isolamento até ele entrar na Casa de Saúde São Sebastião e de lá ser resgatado para Belém por tropa armada da Aeronáutica.

No ano seguinte seu mandato foi cassado, sem que os procedimentos iniciados tivessem sido concluídos. Não interessava: o objetivo de afastá-lo havia sido alcançado. Um relatório elaborado a pedido da mesa da Câmara Federal pelo deputado Dnar Mendes, da própria Arena, responsabilizou os homens do governo pelas mortes, a começar por Alacid. Mas tudo foi deixado de lado. As prestações de contas de alguns de seus sucessores, na leva de interventores que sufocou a vertente oposicionista de Santarém, não foram aprovadas pelo TCE. Mas nenhuma marolazinha se formou a respeito. Trataram foi de apagar essas marcas [que espero reavivar e esclarecer com meu novo livro].

Papai tentou voltar à política, muito depois. Não mais conseguiu, inclusive por erros que cometeu. Um grave problema de coluna foi cerceando a sua incrível capacidade criativa para os negócios, sempre prejudicada por sua falta de constância e disciplina. Morreu pobre, com a roupa do corpo. Uma pessoa que me procurou depois da sua morte para cobrar a parte dele numa sociedade, não acreditou nisso. Ofereci-lhe procuração para vasculhar todos os cartórios ou qualquer outra fonte de informação e ficar com o bem que localizasse do meu pai. Seu corpo está depositado numa sepultura que comprei para ele no cemitério de Santa Izabel.

A cada aniversário dele ou a cada natal que passa, minha saudade cresce e meu juízo sobre sua obra vai reforçando em mim a convicção de que, não exatamente como filho, mas como seu companheiro e crítico, às vezes desajeitado, é meu dever contar sua história. Não para mim, meus parentes ou aderentes. Nem para seus biliosos inimigos e meus covardes inimigos. Mas para a região que ambos, meu pai e eu, tanto amamos, um traço que nos une hoje mais do que nos uniu ontem, quando dessa afinidade mal tínhamos consciência, se é que a possuíamos.

Discussão

5 comentários sobre “Arquivo JP (30)

  1. Bastava este texto para consagrá-lo o ” gigante” do jornalismo brasileiro e em particular da amazônia. Relato de verdade e emoção. Meu abraço fraterno e admiração constante!

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    Publicado por José de Arimatéia M. da Rocha | 31 de julho de 2018, 13:51
  2. Belo texto, Lucio. Parabéns!

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    Publicado por Marilene Pantoja | 31 de julho de 2018, 16:21
  3. Lúcio,
    Quando possível, comenta um pouco sobre o projeto de Elias Pinto para a criação de um novo estado, desmembrado do Pará.

    Pelo que sei, por ouvir dizer, era muitíssimo mais bem feito do que o quasímodo que a velhacaria concebeu, gestou e pariu, sendo submetido a plebiscito e, felizmente, rejeitado, há alguns anos.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 31 de julho de 2018, 18:32

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