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Biodiversidade, Ciência, Desmatamento, Ecologia, Energia, Estrangeiros, Floresta, Minério, Multinacionais, Queimadas, Sudam, Terras

Amazônia: a nova Antártica

Este texto foi publicado na 28ª edição dos Cadernos da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), de 2007, que registrou os debates na sua 59ª reunião Anual, realizada no mesmo ano.

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Qual é o lugar da Amazônia no século 21? Para responder à pergunta, o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio de Faria Pinto comparou os investimentos em pesquisa na região amazônica com aqueles aplicados na Antártica. Há muito mais recursos financeiros para a ciência por metro quadrado no continente gelado do que aqueles aplicados na área amazônica. A Amazônia deve ser a nova Antártica do Brasil e do mundo”, disse Faria Pinto, defendendo um maior incentivo às pesquisas na região brasileira.

Segundo ele, somente o conhecimento científico produzido na região amazônica pode impedir que a área se transforme na grande colônia de recursos naturais do século 21, como foram a África e a Ásia no passado. Para fugir do colonialismo, portanto, o Brasil deve aprender a conhecer as suas riquezas.

Diante de uma plateia completamente lotada, o jornalista apresentou a conferência ‘Qual é o lugar da Amazônia no século 21’, durante a 59ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Belém, Pará. Foi necessário que o encontro da SBPC se realizasse na capital paraense para Faria Pinto defender seu ponto de vista diante da comunidade científica. “Há muito mais recursos financeiros para a ciência por metro quadrado no continente gelado do que aqueles aplicados na área amazônica.”

“Já passamos por vários testes na Amazônia – seringueiros, pecuaristas, madeireiros –, mas tudo se mostrou deficitário. A ciência foi o que nos restou, agora devemos dialogar com ela.” Em sua palestra, Lúcio Flávio concluiu que a ciência é o personagem que faltava no contexto histórico da região amazônica. “Já passamos por vários testes na Amazônia – seringueiros, pecuaristas, madeireiros –, mas tudo se mostrou deficitário. A ciência foi o que nos restou, agora devemos dialogar com ela”, afirmou.

Ele sugere que seja criado um projeto para a Amazônia em que a ciência seja prioridade. Inicialmente é feito um zoneamento da região, para que seja definido em quais áreas trabalhar. “Mas zoneamento não significa desenhar o éden no computador e depois não saber o que fazer”, ironizou o jornalista. Ele criticou o episódio em que a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) aprovou a criação de gado em São Félix do Xingu, município no sul do Pará. Atualmente o município possui o maior rebanho de gado do país.

“É a lógica do absurdo. Ninguém imaginaria no passado uma cidade da Amazônia criando gado”, disse, acrescentando que há vocações mais sustentáveis e de maior rentabilidade para a região. Para o jornalista, a ciência que será aplicada na Amazônia não deve ser trazida pronta de fora, mas formada na própria região. “Tem que pegar essa meninada que está com gana de aprender e dizer que eles vão fazer história”, disse.

Ele recomenda que sejam criados cursos de graduação nas universidades locais voltados para as questões do lugar, forçando o pesquisador a permanecer na região. É preciso que o Brasil seja o centro de vanguarda em pesquisa na Amazônia para enfrentar os inúmeros desafios que a região oferece. “Subitamente pode aparecer uma questão que precise de uma resposta rápida; não podemos dizer ‘parem a realidade que vou procurar na literatura’”, alertou. “É preciso que o Brasil seja o centro de vanguarda em pesquisas na Amazônia para enfrentar os inúmeros desafios que a região oferece.” No Brasil, entretanto, a ciência vem a reboque dos problemas causados, sempre constatando um mal gerado anteriormente, diz o jornalista.

Em 1976, quando Faria Pinto começou a trabalhar em jornal, a reunião da Biota Amazônica, em comemoração ao centenário do Museu Paraense Emílio Goeldi, foi um grande avanço científico, mas contrastava com o interesse do governo em aumentar a exploração e a consequente devastação da Amazônia. As políticas públicas na região ainda hoje têm a característica de devastar para mais tarde se preocupar com o resultado. “Depois do desmatamento, o maior mal já foi feito, tudo o que vier de ganho a partir disso não será suprido pelo erro original”, ressaltou o jornalista.

Para ele, a Amazônia deve dar uma chance às pesquisas de ponta, visto que não deu certo com madeireiros ou grileiros de terra. Mais grave que apenas constatar os erros, entretanto, é nem sequer fazê-lo. Faria Pinto reconheceu que cada vez mais a ciência é movida por interesses que interferem na isenção das pesquisas. “Antigamente os capitalistas usavam o 38 para fazer valer sua força, hoje usam o dinheiro”, comparou. Muitos cientistas acabam escondendo os resultados de seus estudos por medo de perder os recursos das pesquisas.

O jornalista citou o exemplo de quando, em 1984, um diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônica (Inpa) informou que seria possível encher a hidrelétrica de Tucuruí em duas etapas. Na época, Faria Pinto pediu os documentos dos estudos que provavam que isso seria possível. Não conseguiu. Acabou descobrindo por meio de um dos pesquisadores que a Eletronorte, principal interessada na hidrelétrica, financiava as pesquisas e que por isso ele não poderia divulgar como foram obtidos os resultados. “O fato é que hoje a informação constitui o poder.”~

O impacto Carajás

Na história da exploração dos recursos da Amazônia, o Projeto Araguaia tem um capítulo de destaque. O maior levantamento geológico do Brasil, iniciado em 1954, descobriu a jazida de minério de ferro de Carajás, a maior do mundo se considerar a quantidade de minério e o teor de ferro. “Quando se descobriu a jazida de Carajás, acreditou-se que duraria 800 anos; hoje a previsão é de que em 130 anos ela esteja esgotada.

“Quando se descobriu a jazida de Carajás, acreditou-se que duraria 400 anos; hoje a previsão é de que em 130 anos ela esteja esgotada. Isso mostra como somos incapazes de delimitar o efeito do processo produtivo na Amazônia. Somos incapazes de delimitar o efeito do processo produtivo na Amazônia”, lamentou.

Com um crescimento exponencial, a exploração chegou a 1 bilhão de toneladas de minério de ferro extraídas de Carajás até este ano, número comemorado com muita festa pela Companhia Vale do Rio Doce, que detém os direitos de exploração da jazida. O exemplo de Carajás mostra, a seu ver, como a aplicação de conhecimento ajuda a sanar alguns problemas. Em 2005, a Companhia Vale do Rio Doce foi a empresa que mais distribuiu dividendos no mundo: um lucro de US$ 15 bilhões (4,5 vezes o valor de sua privatização em 1997). As estradas por onde é levado o minério de ferro já foram duplicadas e é cogitada a ideia de se construir um minerioduto, que seria o maior do mundo. A jazida está próxima de seu limite de exploração e transporte.

Embora o preço do minério de ferro ainda esteja elevado no mercado internacional, o valor do aço é muito maior. Além disso, o volume de cargas reduziria em um terço apenas se a empresa mudasse a produção de minério bruto para o aço. “Quem exporta energia bruta não quer se desenvolver, não quer nem ao menos tentar”, criticou o jornalista.

Para Faria Pinto, a história de Carajás marca ainda uma importante mudança na paisagem amazônica. Após a descoberta da jazida, cresceu o interesse estrangeiro na região. Para defender a soberania da Amazônia e possibilitar a exploração de Carajás, o governo reagiu construindo estradas. “Nada é mais traumático na história da Amazônia do que as estradas. Nunca se inventou uma bomba tão nociva quanto elas”, enfatizou o jornalista.

Até então os moradores locais formavam uma civilização fluvial. Há 12 mil anos já existiam povos vivendo na região amazônica, mas sempre ao longo dos cursos d’água, sem avançar pela terra firme. Com a construção das estradas o homem penetrou finalmente nas áreas florestais. “O resultado deste processo é a maior destruição de florestas da história da humanidade”, disse Faria Pinto, enfatizando os espantosos números de devastação em um período tão curto de tempo.

Um exemplo de tal impacto é a queimada provocada pela Volkswagen em 1976 em sua fazenda em Santana do Araguaia, sul do Pará, para a criação de gado. A queimada é considerada o maior incêndio já registrado pelos satélites da Nasa, a agência espacial norte-americana. Depois do estrago, a empresa automobilística desistiu de investir na criação de gado na região. Fantasmas estrangeiros

Segundo o professor, a desculpa de defender a soberania da Amazônia tem gerado ao longo dos anos políticas públicas devastadoras na região. Ele acredita que o grande problema da Amazônia não vem do exterior, mas reside no próprio país, com os grandes latifúndios fazendo uso indevido da terra. “No momento de minhas orações, peço que o Brasil sobreviva aos brasileiros”, confessou o jornalista.

Em 2005, ele foi condenado por difamação por ter taxado de ‘pirata’ o empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, dono da CR Almeida. A empresa, com sede no Paraná, teria a posse de uma área de 7 milhões de hectares com grande concentração de mogno, em um local conhecido como Terra do Meio, no estado do Pará. “Ele tem uma propriedade 100 vezes maior que o tamanho máximo permitido pela lei, e o criminoso sou eu”, reclamou o jornalista. “Fui condenado por chamar um pirata de ‘pirata’”, repetiu.

Em 2007, a Justiça determinou a desapropriação imediata de uma área de 4,7 milhões de hectares, reivindicada pela CR Almeida. De acordo com o parecer do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a área é apontada como a maior grilagem de terra do Brasil.

Se as grandes mazelas da Amazônia são provocadas pelos brasileiros, e não pelos estrangeiros, para o jornalista é preciso que agentes públicos parem de procurar problemas onde eles não existem e combatam com seriedade o que de fato prejudica a região. Ele comentou algumas teorias que circulam na internet, como o suposto plano norte-americano de enviar 2 milhões de negros para a região ou o famoso mapa do Brasil onde não consta a área da Amazônia.

Mas para Faria Pinto, antes de ver fantasmas à luz do dia, o brasileiro deve atrair os estrangeiros e aprender com eles para trabalhar pela Amazônia. Ele cita o exemplo dos holandeses, que já conseguiram tomar terras do mar e hoje enfrentam as mudanças climáticas com ajuda do avanço tecnológico.

Quando os japoneses começaram a investir na Amazônia, perceberam que a região é muito rica e que o brasileiro não tem noção dessa riqueza. “Eles se deram conta de que “Nada é mais traumático na história da Amazônia do que as estradas. Nunca se inventou uma bomba tão nociva quanto elas.” “Nós não temos uma coluna vertebral, somos um povo sem opinião”, constatou Faria Pinto. O jornalista acredita que o brasileiro sabe pouco da Amazônia, o que o torna – e não o estrangeiro – um estranho na região. Muito do que foi criado no local foi feito com base internacional; a própria base de conhecimento sobre a Amazônia provém de uma matriz estrangeira.

Para mudar esse quadro, é preciso, na sua opinião, manter a solidariedade estrangeira e aprender com a experiência de fora, mas, ao mesmo tempo, começar a fazer o crescimento brotar no próprio local. Conciliar, por exemplo, a experiência estrangeira com o conhecimento empírico do caboclo.

Uma última história remete à década de 80, quando técnicos tentavam prever o tamanho da cheia do rio Tocantins. Conversando com um caboclo, o jornalista perguntou qual seria a magnitude da cheia. O caboclo respondeu: “Você está vendo aquelas formigas? Elas nunca subiram até aquele ponto, isso quer dizer que as formigas estão estocando comida no local mais alto porque o rio está subindo mais do que o normal”. Faria Pinto buscou informações com técnicos que disseram que a cheia não seria tão grande.

Naquele ano, o rio Tocantins teve a maior cheia de sua história. “Eles estão aqui há muito mais tempo que nós; não podemos desperdiçar esse conhecimento”, concluiu. Para o jornalista, a chance de o Brasil fazer um século 21 diferente e fugir da tendência de colonialismo na região é investir no conhecimento científico. Um conhecimento criado in loco, mas com o apoio da experiência estrangeira. Assim, usando de forma correta seu bem mais precioso, o país pode deixar a condição de colônia e vencer o grande desafio da Amazônia. “Temos que aceitar esse desafio!”

Discussão

4 comentários sobre “Amazônia: a nova Antártica

  1. Quais os governadores que te ouviram, se aconselharam, sobre a Amazónia? Quantas vezes fostes convidado pelo Governo para viajar/falar sobre a Amazónia ? Quantos de teus livros sobre a Amazônia o Governo promoveu/divulgou?

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    Publicado por valdemiro | 17 de março de 2022, 18:13

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