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Imprensa, Polícia, Violência

Jornal da polícia

Fotos de sete cadáveres ilustram a edição de hoje do caderno de polícia do Diário do Pará. Fotos bem abertas – e aberrantes. Nada de novo: desde que foi criado, o tabloide sangrento faz sensacionalismo com as imagens de pessoas (pobres ou qualificadas previamente – sem o direito de defesa e esclarecimento – de bandidos) para atrair leitores mórbidos e vender exemplares. Não sei se há algo parecido na imprensa mundial. Acho que não há mais.

Além de ser recurso comercial, o caderno se tornou o porta-voz dos policiais, provavelmente dos piores policiais das corporações estaduais, principalmente da PM, a fonte de todas as informações do repórter quase único do jornal, JR. Avelar. Mas, acima de tudo, o legitimador das intervenções violentas, arbitrárias e sem controle dos policiais violentos, das turmas de extermínio daqueles considerados bandidos. Quem lê a publicação deve ter constado a repetição do enredo: os marginais perseguidos reagem aos policiais, atiram contra eles, invariavelmente sendo mortos, enquanto os agressores não sofrem qualquer ferimento.

A fórmula pronta está numa das matérias da edição de hoje. Apesar de cercado por vários policiais (o número certo é omitido), que chegaram em um veículo e em motos, o bandido Diego Darley investiu contra eles atirando com um revólver artesanal. Morreu, é claro. Foi em Santa Izabel do Pará, na Grande Belém.

Em Capanema, os executados foram dois de quatro bandidos perseguidos. Um foi preso logo que os policiais chegaram ao local, sem ter reagido. Um quarto fugiu. E dois estavam entocados num buraco na parede da casa em que se abrigaram, numa área da periferia da cidade; A princípio, não reagiram. Surpreendentemente, começaram a atirar quando o reforço pedido pelos policiais que já estavam no local chegou. Morreram, pois.

O jornal do governador Helder Barbalho e do senador Jader Barbalho também apoiou a execução de cinco bandidos que invadiram a residência do vice-prefeito de Cachoeira do Piriá e nela fizeram reféns (que liberaram quando fugiram). JR Avelar não diz se a execução (a tiros, pedradas e golpes de terçado) foi pela população revoltada ou a mando do vice-prefeito, cujo nome não informa.

E assim segue o Diário do Pará, morgue sensacionalista e porta-voz dos policiais truculentos.

Discussão

5 comentários sobre “Jornal da polícia

  1. Talvez esses abusos diminuam quando o governo resolver implantar câmeras nos uniformes dos policiais.

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    Publicado por ricardoconduru | 14 de maio de 2022, 22:19
  2. Segundo a Wikipedia, Cachoeira do Piriá — onde foram linchados os 5 bandidos sequestradores — tem pouco mais de 33 mil habitantes, densidade de 13,7 habitantes por Km2, e PIB (2014) de R$ 143,2 milhões, o que dá um “per capita” de mirrados R$ 4,7 mil. Em 2014 o IDH de Cachoeira do Piriá era 0,473, ou seja, muito baixo, até mesmo para os raquíticos padrões paraenses.

    Mas o município é área de garimpo. Ouro… O que autoriza supor que o PIB realmente gerado na área é, provavelmente, muitas vezes maior que o contabilizado pelo IBGE. A maior parte da riqueza ali extraída, simplesmente não é declarada. O IDH cachoeirense é consistente com o que se costuma observar em áreas de extração mineral: tira-se o que há pra tirar, do solo, do subsolo, dos leitos dos rios, etc., deixando-se, em troca, miséria humana e natureza degradada. Por “miséria humana”, entenda-se miséria material, moral, intelectual, política, violência, e toda sorte de degradação humana que esse termo pode conter.

    É a regra. Lá pelo início dos 1980, estive em Curionópolis, fazendo uma parada no caminho para a serra, N-4, onde participaria de uma reunião com representantes da Vale, ainda estatal. O objetivo da reunião era buscar um acordo sobre quem deveria administrar as estruturas de lazer montadas no Platô 4: se a própria Vale ou uma instituição do “Sistema S”, a quem eu representava. A Vale queria empurrar as estruturas pro “Sistema S”, e este queria que elas continuassem com a Vale, o que acabou ocorrendo. A parada em Curionópolis foi pra ver umas pessoas que estavam muito doentes, para quem solicitaria internação no hospital da Vale, na serra. (A Vale mandou buscar os enfermos no dia seguinte. Dos quatro, três haviam morrido, mas a lista fora acrescentada de mais um. A Vale acabou internando os dois: um da lista original e o acréscimo).

    Fiquei chocado com o que vi em Curionópolis. Dali de perto, da Serra Pelada, foram retirados milhares de quilos de ouro. E, o que ficara? Nada! Uma favela de barracos de palha, horrenda como um abcesso, em plena selva amazônica. Nenhuma rua asfaltada, nenhuma escola pública, nenhum hospital, nem mesmo um reles posto de saúde. Nada, absolutamente nada que miseravelmente lembrasse os milhões de dólares que foram arrancados dali.

    Ainda hoje, minhas memórias de Curionópolis daquele dia, me fazem lembrar do “buraco do navio”, no Amapá, e da brutal incidência de câncer que ceifou a vida de um monte de amapaenses, entre eles o Antônio, um adorável garoto de seus 9/10 anos, que eu conheci na “periferia do inferno”, como me habituei a chamar a sala de espera do Instituto Ophir Loyola, para aplicação de radiações de cobalto. Eu comparecia três vezes por semana à “periferia do inferno”, acompanhando uma pessoa que, como o Antônio, não resistiu…

    E lá se vai, Cacheira do Piriá, a pouco mais de 250 Km de Belém, repetindo a escrita medonha de que este país infeliz, e este estado esculhambado, são tão pródigos, sob a passividade bovina da bugrada mansa que os habita.

    Só pra lembrar, em se tratando de segurança: o Brasil tem o 12º ou 13º (a depender do critério de medição, se em dólar corrente ou dólar médio) maior orçamento militar do planeta. O orçamento militar brasileiro é maior do que o do Irã, que vive metido em bronca (nós também, né?, só que de um outro tipo). Nosso pessoal fardado soma portentosas 760 mil almas, sendo 350 mil nas FAs, e 410 mil nas PMs.

    Tem, aí, alguma coisa errada, que não está certa…

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    Publicado por Elias | 15 de maio de 2022, 13:18
    • Obrigado pelo testemunho, Elias. E Curionópolis ainda teve que engolir a homenagem toponímica.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 15 de maio de 2022, 15:19
      • Colocar em uma cidade o nome de um dos piores bandidos que a.nossa ditadura militar produziu é a mesma coisa que nomear uma cidade alemã de Mengelópolis ou Hitlerópolis. Só mesmo num país como o Manicômio Federativo do Bananil essas coisas acontecem.

        E quanto a esse sensacionalismo barata do Diário do Pará, ele só pode ser comparado aos que os tabloides britânicos fazem com celebridades (e as vezes chega até matar gente, como foi o caso da princesa Diana). Nem Chateaubriand, que era um chantagista, chegou a tamanho nível de baixeza o qual o jornal dos Barbalhos chegou.

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        Publicado por Igor | 16 de maio de 2022, 09:05
      • Corrigindo: é “barato”.

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        Publicado por igor | 16 de maio de 2022, 10:47

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