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Justiça, Polícia

Caso não terminou

A morte da juíza Monica Maria Andrade Figueiredo de Oliveira, no final da noite do dia 16, foi por suicídio. Esta é a versão unânime tanto do marido dela, o juiz João Augusto Figueiredo de Oliveira Junior, quanto da polícia civil, e reconhecida como verdadeira por uma representante da família da juíza e sua sobrinha, Monique Andrade, que veio a Belém para acompanhar a transferência da tia para a Paraíba, onde ela nasceu e na qual será enterrada, hoje.

A admissão do suicídio como causa inconteste da morte, o caso não está encerrado. Ele é insólito e intrigante, fora dos padrões mais frequentes nesse tipo de acontecimento. Contrariando as expectativas dos que a conheciam como uma mulher alegre, bem disposta, bonita, jovem (com 47 anos), que há seis anos ocupava a vara única de uma comarca no interior do Rio Grande do Norte, dirigindo também o fórum local, e cuidava de dois filhos do primeiro casamento, um adulto e outro adolescente, a juíza se matou de forma surpreendente e chocante.

Seu marido, que ocupa o juizado da violência doméstica e familiar contra a mulher de Belém, reconheceu que, na noite de segunda-feira, eles tiveram uma discussão, mas que teria sido “pequena”. Apesar dessa classificação, o incidente foi o bastante para que Monica refizesse a sua mala e saísse do apartamento, dizendo que ia refazer a viagem de volta à sua própria casa, em Martins. Ela vinha frequentemente a Belém para se encontrar com o marido, que também fazia o percurso para vê-la.

Aparentemente, João Augusto nada fez para impedir a saída da esposa. A relação dos dois começara apenas dois anos antes, O casamento fora em julho do ano passado, Ele devia saber que Monica fazia tratamento com psicólogo e psiquiatra, além de tomar remédios para depressão e ansiedade. Esses cuidados não a impediam de ter uma vida normal e tranquila, segundo depoimento dos parentes, nada indicando que pudesse praticar um ato súbito e tão violento quanto o de se matar.

Ao descer pelo elevador, ela não foi para a entrada do prédio, como seria coerente com um estado de ânimo causado por uma pequena discussão. Foi diretamente para o estacionamento do edifício, entrou no carro de João Augusto, abriu o porta-luvas, tirou um revólver municiado (ainda não descrito), atirou contra o peito e se matou com um único e certeiro tiro. O disparo foi dado antes da meia-noite de segunda-feira. O barulho deve ter ecoado pelo espaço da garagem, mas não foi ouvido por ninguém, nem pelo porteiro.

Sem sair do seu apartamento, o juiz foi dormir, acordando normalmente ao amanhecer para ir trabalhar. Não ligou para saber do paradeiro da esposa. Não encontrando a chave reserva, foi para seu automóvel porque deixava a chave titular na ignição. Iria cumprir a sua rotina. Afinal, como disse, a discussão foi “pequena”. Para ele, talvez. Para Monica, não. Ela se matara, como deduziu logo ao ver o corpo da mulher.

A reconstituição a partir desse ponto é confusa, tem lacunas e contradições. O juiz criminal sabia para onde se dirigir: ligou para a divisão de homicídios da polícia civil. Mas fez o que não devia fazer: ao invés de preservar a cena até a chegada da polícia, entrou no carro e levou o cadáver, assim desfazendo a cena do crime e atrapalhando a perícia que se faria. Levar o corpo para um hospital, na tentativa final de salvar a esposa, teria sido um gesto mais previsível de desespero. Mas mão levar um cadáver para a polícia.

O que, afinal, o casal discutir? Quanto tempo durou a discussão? Monica chegou quando a Belém: Quanto tempo passou no apartamento do marido? Como estava a relação conjugal, de apenas dois anos de duração? O que fazia a mulher em Belém?

Essas e outras perguntas estão ainda sem resposta. Sem elas, a investigação tem que prosseguir. Não apenas para a elucidação completa da morte de Monica, mas também porque João Augusto deve estar em plenas condições de reassumir a sua função na justiça do Pará, de titular justamente do juizado da violência doméstica e familiar contra a mulher

Discussão

7 comentários sobre “Caso não terminou

  1. Como todo bom ser carregado de empatia e indignação, espero, do fundo do meu coração, que as situações se desenvolvam pelo caminho correto e as dúvidas sejam elucidadas. Me deu um frio na espinha só de cogitar a ideia de que os atos errôneos do referido juiz, sejam relevados e deixados de lado durante a investigação.

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    Publicado por Murilo Souza | 19 de maio de 2022, 13:25
  2. Lùcio, boa tarde. E aconteceu mais um suicídio no Boulevard, ontem à noite. Mais uma jovem se jogou e deu fim à própria vida. Esse shoping está, infelizmente, ganhando uma notoriedade funesta devido a essas ocorrências.
    E melhoras para a tua saúde, sempre.

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    Publicado por Rafael Araújo | 19 de maio de 2022, 17:32
    • Infelizmente, é verdade.
      Obrigado, Rafael.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de maio de 2022, 19:05
      • Mais uma vez, a história se repete como tragédia e farsa no Shopping Boulevard (algumas vezes frequentei ele) . A pergunta que eu faço é: de 2009 (quando eu tinha 8 anos e comecei a frequentá-lo) até os dias de hoje, quantos suicídios aconteceram? Por que o shopping ainda resiste em tomar providências cabíveis pra evitar isso?

        Sei que tem gente que, olhando isso, vai dizer: “mas não é culpa do shopping… a pessoa que quer se matar, vai fazer isso em qualquer lugar”, entre outras baboseiras. Bem, ignorância, burrice, deficiência cognitiva ou falta de entendimento das circunstâncias causa esse tipo de fala beócia mesmo. Mas vamos objetivar: estou a falar de um shopping onde suicídios acontecem há anos com dinâmicas IGUAIS. Portanto, estamos falando, sim, de lugar. O lugar se tornou propício. O lugar oferece facilitadores e apresenta um fator a mais na receita para a catástrofe às pessoas que estão em busca de um cenário facilitador para tal. Não sou psiquiatra, psicanalista, psicólogo, especialista em Saúde Mental ou algo semelhante, mas sei que as causas do suicídio não são meramente espaciais. Sim, certos locais podem e viram gatilhos, somados aos outros de ordem pessoal que o suicida apresenta. Portanto, é preciso estar ciente do quadro geral que envolve essa questão.

        O suicídio não acontece por acaso, e sim, por uma série de fatos e fatores, simultâneos e/ou conjugados, ajudados por facilitadores e oferece sinais. Os primeiros, que são os gatilhos, são de ordem subjetiva e não vou entrar no mérito dessa questão. Quanto aos facilitadores, e aqui falo como um bacharel em Direito, me refiro a cenários que oferecem caminhos práticos para o desastre: uma loja que vende armas sem critério nenhum, uma farmácia ou empreendimento de fórmulas químicas que não controla a venda de produtos venenosos, um local que NÃO CUIDA DAS MURADAS NAS ESPECIFICAÇÕES QUE A LEI EXIGE PARA A SEGURANÇA DE SEUS FREQUENTADORES. Nisso se enquadra o shopping Boulevard.

        Olhando o shopping, percebe-se que as dimensões das muradas dele, o excesso de vãos livres e mais o fato das muradas serem de material transparente permitindo a visualização do trajeto rumo ao chão, sem garantias de segurança, podem induzir a um gatilho. Para além disso, há a plena imobilidade social para detectar os sinais do suicida. Nesse campo, podemos situar mais uma falha de segurança. Afinal, pra que serve o pessoal que fica circulando nesse local fardado ou de terno e gravata? Apenas para ficar atrás de supostos bandidos que podem furtar ou roubar lojas? Não. Eles precisam ser qualificados TAMBÉM para lidar com o potencial suicida. Eles precisam estar próximos dessas muradas equivocadas e sem garantias de segurança, precisam monitorar comportamentos suspeitos nesses locais.

        Outra ação simples que o shopping tem a oportunidade de fazer é uma campanha com peças, totens, banners e não apenas voltados para exaltar vendas e padrões estéticos fictícios e que só vendem um conceito ilusório de felicidade, parecendo político em época de eleição. Não precisavam ser peças publicitárias explicitamente ligadas ao suicidio ou mostrasse imagens explícitas disso. Mas o shopping poderia espalhar pelos seus metros quadrados imensos banners com a imagem de alguém estendendo a mão e dizendo: “estamos aqui e nos preocupamos com você… converse conosco”. Imagine o impacto disso? Essa mensagem serviria para tudo e, em especial, para dores do vazio que a depressão (uma doença séria) impõe. Será que ações assim não trariam segurança, conforto mínimo, válvula de escape e inibiriam gatilhos das pessoas que se lançaram ao sono mortal nesses vãos? Todo esse complexo de falta de cuidados é erro do Shopping Boulevard sabido e apontado há anos.

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        Publicado por igor | 19 de maio de 2022, 20:01
      • Portanto, creio eu, o shopping, devido a sua imobilidades frente aos suicídios, a falta (ou insuficiência) de elementos que impeçam isso ou a presença de gatilhos indutores dessas mortes violentas, é civilmente responsável pelos acontecimentos, podendo a família dessa jovem que se matou entrar com uma ação indenizatória contra o shopping.

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        Publicado por igor | 19 de maio de 2022, 20:17
  3. Um simples exame para ser verificada a existência de resíduo de pólvora na mão da juíza que acionou o gatilho tirará qualquer dúvida quanto ao suposto suicídio.Será que a polícia científica realizou esse exame?

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    Publicado por Wilton Almeida | 19 de maio de 2022, 18:24

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