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Cultura, Política

A história na chapa quente (124)

A exposição do ano,

assinada pelo alcaide

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 303, de junho de 2003)

“Marés do Céu”, a exposição de 71 desenhos de Edmilson Rodrigues, foi o acontecimento do ano nas artes plásticas em Belém neste ano. Nada menos que 341 pessoas compareceram ao vernissage, no dia 27, no Mabeu (Museu de Arte Brasil-Estados Unidos). Já na abertura, 15 obras foram vendidas, no valor de 14 mil reais.

Se todo o conjunto fosse comercializado, a renda da exposição seria de 74 mil reais. Por decisão do artista, essa receita será destinada ao Projeto Solar dos Sons, através do qual a prefeitura procura desenvolver artisticamente os filhos dos feirantes do Ver-o-Peso.

Por esse ângulo, a iniciativa merece todos os louvores. Mas será que realmente estamos diante de verdadeiras obras de arte, que mereceram tantos elogios num catálogo luxuoso, dos melhores já concebidos e impressos para uma exposição no Pará (comercializado a R$ 10 o exemplar)?

O público e os avalizadores da exposição parecem responder afirmativamente. Cada desenho foi oferecido numa média de preço alta para os padrões locais: pouco mais de um mil reais. Há trabalhos, porém, de R$ 2 mil. Um desenho a caneta Bic (ao que parece, o dérnièr-cri da criação pós-moderna parauara), com 5 por 10 centímetros, foi avaliado em R$ 500. Por esses valores, Edmilson Rodrigues é o crème de la crème das artes plásticas paraenses.

Se essa promessa se confirmar em futuras exposições, o empresário Carlos Nascimento, concessionário municipal do serviço de lixo, terá feito um bom investimento: ele pagou R$ 5 mil por quatro desenhos de Edmilson, formando o maior acervo da exposição.

Mesmo sendo ainda a primeira do novel artista, a mostra inaugural já incluiu entre suas obras uma que foi extraída do “acervo de Vera Rodrigues”, precursora, certamente, do estouro que se avizinha. Sintomaticamente, todas as vendas foram efetuadas no primeiro dia, à vista do público, com a devida recompensa na repercussão.

Ele sabe desenhar

Não há dúvida que o arquiteto Edmilson Rodrigues sabe desenhar. Seus trabalhos atestam o domínio dos mecanismos básicos dessa técnica. Se ele fosse um estudante secundarista, sua exposição faria sucesso em seu colégio e ele estaria credenciado a receber a aprovação de seus mestres.

Mas, aos 45 anos, a bitola do grafismo não deixa dúvida que falta a esse desenhista o sopro da criatividade e inventividade do verdadeiro artista. Não porque ele já esteja na fase da alta maturidade, vítima de um bordão preconceituoso (segundo o qual papagaio velho não aprende a falar). Mas porque tentou ser artista e não conseguiu.

O trabalho mais antigo da exposição, de 1980, documenta esse esforço: anônimo professor então, conhecido apenas no círculo profissional e pessoal, Edmilson tentou experimentar as tintas e tentar o abstracionismo. A intenção do artista nesse trabalho único é tão nítida quanto seu insucesso.

A partir daí, ele parece ter aceitado que seu universo se circunscrevia ao traço, com a ajuda de ferramentas mais ajustadas aos seus recursos. Na exposição, do período de criação de Edmilson entre 1980 e 1996, quando ele se elegeu prefeito de Belém pela primeira vez, aparecem apenas oito trabalhos. Do período 2001-2003 foram selecionados 44 trabalhos. Em quatro meses deste ano o arquiteto-artista produziu 16 obras, aproveitadas na mostra.

A conclusão óbvia dessa cronologia é de que a dimensão da exposição deve-se menos às qualidades intrínsecas do artista do que à circunstância de estar ele revestido da autoridade de prefeito da capital paraense. Áulicos, fornecedores, empreiteiros, subordinados e, claro, também amigos se sentiram no dever de multiplicar por várias vezes os méritos do desenhista para que sua fundação se tornasse um marco publicitário e político. Nada de novo: assim funcionam as cortes.

Artista em qualquer ocasião

Mas, benefício social à parte pela destinação altruística da renda da exposição, ela tem dois efeitos danosos. Levado a crer na consistência de sua veia artística, o prefeito vai expandir o hábito de produzir em solenidades públicas a que comparece, ignorando os preceitos da cortesia e da educação que a coabitação na mesa oficial lhe impõe diante dos demais, inclusive do público. Enquanto o vizinho se esgoela, ao seu lado o prefeito-artista se põe a desenhar “em momentos de profunda reflexão”, conforme atesta Márcio Meira no catálogo da exposição.

Incorporando as vestes de artista de ocasião & estalo, Edmilson faz questão de apontar nos seus trabalhos o momento da fecundação. Um desenho foi traçado durante o seminário de prefeitos do PT, no dia 26 de janeiro do ano passado. Nesse mesmo dia, mas já no escritório do senador Jorge Viana, a fecundidade obrou outro desenho (cotado em R$ 1,6 mil).

Melhor resultado ainda alcançou o artista com um desenho a Bic do rosto de um índio (leitmotiv da obra), garatujado em junho de 2001, que subiu na bolsa para R$ 2 mil. Valor atribuído a desenho que veio ao mundo em qualquer dia de 2001, durante encontro sobre educação infantil.

O outro efeito lesivo desse sucesso de encomenda é sobre a própria arte e os incontestáveis artistas. Como seria uma exposição de Edmilson Rodrigues sem as luzes da prefeitura? Quanto valeriam seus trabalhos sem seu título poderoso? O que diriam deles os críticos, se crítica para valer ainda houvesse em Belém?

Numa época em que prevalecem as unanimidades coniventes, o desenho escolar de Edmilson Rodrigues vira boa arte e a ginkana de fonemas de Salomão Laredo se torna façanha literária.

O cenário me faz lembrar Jean-Christophe, o romance através do qual Romain Rolland nos fez entender como, de uma alta civilização como a alemã, surgiria o nazismo, com um momento fugaz de ilusão em Weimar. Mas neste jornalzinho, não, gabiru: aqui, o prefeito produziu desenhos escolares e Laredo, pastiches. Um se valendo do seu cargo, outro do seu encosto jornalístico.

Um dos momentos de maior felicidade na minha vida foi, em 1990, ir à exposição do centenário de Van Gogh, em Amsterdam, e dar, logo na entrada, com todas as cartas que ele escreveu para o irmão, Theo, integralmente enfileiradas nas paredes como se fossem telas.

Ler diretamente aquelas cartas fascinantes e saborear os desenhos do artista, que ocupavam boa parte do papel como vinhetas de um fabuloso processo de nascimento de um dos maiores artistas da história humana, me encheu de tal admiração por esse processo da gestação da grande criação que me sinto na obrigação, em defesa desse prazer e dessa ventura, de desejar ao desenhista Edmilson Rodrigues um silêncio fecundo até a próxima exposição.

Se possível, criando junto com a melhor das mestras: a solidão do eu. Não, de forma desabusada, em solenidades públicas, para as quais foi convidado em função do seu cargo e não da sua pessoa.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (124)

  1. Um era artista plástico ruim, o outro um sofrível poeta. O que os dois tem em comum? Ambos são péssimos gestores públicos.

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    Publicado por José Silva | 10 de maio de 2017, 08:04

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