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Ecologia, Governo, Minério

O olho do povo

A Vale anunciou que vai aplicar 24 bilhões de reais para pagar compensações e indenizações pelos danos e prejuízos causados pelo rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, que hoje completa um ano. Certas reparações, como às famílias dos desaparecidos, que não foram resgatados até hoje, são impossíveis. Seja porque a dor que a impossibilidade de realizar o luto e encerrar a história de sofrimento dos que sobreviveram a essas vítimas, alongando-se, faz da dor uma chaga eterna nos parentes e amigos. Seja porque nada poderá restituir o vale do rio Paraopeba à sua fisionomia original.

Os R$ 24 bilhões se assemelham ao orçamento do Pará previsto para este ano, de R$ 28 bilhões, dinheiro que mantém 100 mil funcionários e responde pelo custeio da máquina pública estadual e seus investimentos por 12 meses. Seria um investimento formidável, avançando para o futuro, ao invés de ser gasto para minorar o mal imenso causado pelo maior desastre ecológico da história do Brasil, com o seu estúpido alcance social.

Passado um ano, a empresa vilã e os seus agentes reagem ao indiciamento pelo Ministério Público argumentando que o ato é precipitado e injusto porque ainda não é possível definir a causa real do rompimento da barragem de contenção de rejeitos e bem avaliar os danos causados. Fora uma série de questionamentos mais, que se sustentam num fato, que a sucessão desses acidentes revela com clareza cada vez maior: o despreparo do aparato estatal destinado a acompanhar, fiscalizar e punir a transgressão empresarial, os crimes corporativos. E de estar à altura da grandeza demográfica, territorial, social e econômica de um país continental como o nosso.

Do meu ponto de vista, o governo federal já deveria ter adotado uma iniciativa: declarar a intervenção estatal na Vale. Não para administrá-la ou exercer qualquer função executiva. A condição de empresa privada que tem a mineradora precisa ser respeitada. Mas o governo, com um ato de intervenção, lastreado em algum dispositivo legal que uma bos busca encontraria, formaria um grupo executivo de alto nível e da melhor qualificação técnica para auditara Vale  em caráter permanente, por um período de um ano, por exemplo.

O dia a dia de atividade permitiria ao grupo (de cinco integrantes, talvez, multidisciplinar, que poderia ser formado por um chamamento público do CNPq, o mais rapidamente que a burocracia oficial permitisse) checar todas as informações da Vale, seus relatórios, os documentos relacionados ao caso, e também auditar suas contas e o funcionamento regular, produzindo relatórios quinzenais para divulgação sem restrições à sociedade via internet. O órgão não teria caráter deliberativo nem punitivo. Sua missão seria representar o povo brasileiro e fornecer-lhe o que lhe falta agora para acompanhar a ação que a empresa anuncia com seus R$ 24 bilhões.

Assim, se poderia separar o comportamento decente da Vale na tragédia que provocou da tentativa de manipulação da opinião pública e despistamento sobre a verdade, como parece ser a intenção real por trás de uma vasta propaganda divulgada na mídia para assegurar a quem a vê que a vilão se tornou mocinha.

Se a sugestão for pelo menos considerada, finalizo sugerindo que ela se chame Operação São Tomé, o personagem bíblico que só acreditava no que via. Ver significa, neste caso, verificar se a chaga da tragédia persiste.

CORREÇÃO

A memória mais uma vez me traiu. Escrevi vale do rio Doce onde deveria escrever Paraopeba.

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