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Imprensa, Justiça, Política

Corrupção em nome da justiça

Reproduzo a matéria principal da coluna de hoje de Elio Gaspari, já que o Diário do Pará não a publicou.

Partilho a opinião de Gaspari de que todos os fatos registrados nas transcrições das conversas hackeadas, que integrantes da Operação Lava-Jato travaram por celular, devem ser investigados e ter as consequências devidas, administrativamente e em juízo.

O que noto de diferente é o ânimo de análises como esta de Gaspari. Parece um acerto de contas com o grupo de agentes públicos que desfechou o maior golpe já praticado contra a corrupção no Brasil, dos maiores do mundo. Um ânimo tão raivoso quanto o dos que atacam Lula e os petistas só por serem quem são, sem examinarem o que fazem e fizeram, separando os fatos dos juízos do valor para que a relação entre os dois elementos distintos contribua para a obtenção da verdade, não para a defesa de uma causa, tese ou interesse particular.

Na guerra travada pela Lava-Jato houve participantes que se desviaram dos procedimentos legais, houve exageros e arbitrariedades, algumas dos investigadores se comportaram mal. Tudo deve ser apurado e os responsáveis punidos. Mas quem fizer esse trabalho de assepsia deve cuidar de exigir a divulgação de todos os 7 terabyte de informação que foram prateados.

Só por má-fé, entretanto, se pode negar o saldo altamente positivo da Lava-Jato, capaz de absorver seus erros e eventuais abusos. Esquecer essa parte da história, justamente a mais importante, para concentrar tudo no lado negativo, como se o propósito deliberado seja o de acabar com as conquistas alcançadas e devolver o Brasil à sua trajetória de corrupção desenfreada, para a qual muito contribuíram Lula e o PT.

É o que atesta a imensa documentação reunida pela Lava-Jato, de cuja consulta a jornalista Malu Gaspar escreveu o mais importante livro sobre “a Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo”. Mas não muitos brasileiros, agora empunhando a lança de defensores da justiça.

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Gilmar Mendes fará uma Lava Jato na Lava Jato

Nas próximas semanas, o ministro Gilmar Mendes levará para a mesa da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal o julgamento da suspeição do ex-juiz Sergio Moro no processo da Lava Jato. São pedras cantadas a exposição da parcialidade do doutor e a promiscuidade de suas relações com o Ministério Público. O ministro deu uma pista do que vem por aí ao lembrar que irá além do que chama de “questão Lula”: será algo “muito maior”.

Põe maior nisso. Gilmar tem assessores passando o pente-fino nas mensagens trocadas em Curitiba. Desde junho de 2019, quando o site Intercept Brasil levou ao ar os primeiros grampos dos 7 terabytes capturados, eles têm aparecido de forma explosiva, porém desordenada. Colocados em ordem cronológica e contextualizados, revelam a extensão das malfeitorias blindadas pela mística da Operação Lava Jato.

A última novidade saída dos grampos foi um episódio ocorrido em 25 de janeiro de 2016. Nele, é mencionada a delegada da Polícia Federal Erika Marena, que integrava a equipe. Nas palavras do procurador Deltan Dallagnol: “Ela entendeu que era um pedido nosso e lavrou termo de depoimento como se tivesse ouvido o cara, com escrivão e tudo, quando não ouviu nada. […] Se o colaborador e a defesa revelarem como foi o procedimento, a Erika pode sair muito queimada nessa… pode dar falsidade contra ela… isso que me preocupa”.

Dallagnol propôs um remendo: “Combinar com ela de ela nos provocar diante das notícias do jornal para reinquiri-lo ou algo parecido. Podemos conversar com ela e ver qual estratégia ela prefere. […] Se não fizermos algo, cairemos em descrédito”.

Havia sido simulado um depoimento que não tinha acontecido, e o caso seria resolvido ricocheteando-se uma notícia que seria plantada na imprensa.

No início de 2016, o juiz Moro ordenava operações irregulares de busca e apreensão: “Russo deferiu uma busca que não foi pedida por ninguém… hahahah. Kkkkk”, escreveu um delegado da PF.“Como assim?!”, respondeu uma delegada.

“Normal… deixa quieto… Vou ajeitar… kkkk”.”

O depoimento mencionado pela delegada Erika era uma das muitas peças da colaboração do lobista Fernando Moura, um amigo do comissário José Dirceu. Ele havia sido preso, negociara um acordo, mas vinha se desdizendo. Numa audiência, tratando de um caso de corrupção explícita na Petrobras, Moura perguntou ao juiz: “Assinei isso? Devem ter preenchido um pouco a mais do que eu tinha falado”.

Estava feia a coisa. A delegada já havia dado sua versão para o depoimento que não aconteceu: “Usaram meu nome no cabeçalho, mas não tomei e não participei de nenhum termo. Se ele está se desdizendo, infelizmente não haverá gravações”.

Os procuradores negociavam o que um deles chamou de “terceirização dos depoimentos”. (Ganha uma vacina de vento quem souber o que é isso). O devido processo legal não era devido, nem processo, muito menos legal. Criminalistas veteranos lembram que esse tipo de “depoimento” era prática comum para rábulas bem relacionados com escrivães.

Um procurador exclamou: “Erramos!!”. Outro, Julio Noronha, resolveu a questão com um xeque-mate: Fernando Moura deveria ser “exemplarmente punido inclusive com prisão —ou o instituto [da delação premiada] sofrerá um abalo”.

Assim, a discrepância foi varrida para baixo do tapete em 2016, e a turma da Lava Jato pagará a conta em 2021.

O pente-fino da equipe de Gilmar Mendes poderá responder à sua grande pergunta: “Como nós chegamos até aqui? […] O que nós fizemos de errado para que institucionalmente produzíssemos isso que se produziu. […] Sabiam que estavam fazendo uma coisa errada, mas fizeram”.

Um reitor na ficha da delegada

Em maio de 2016, a delegada Erika Marena teve 1.065 votos entre seus pares para substituir o diretor da Polícia Federal. Com a fama da turma de Curitiba, Marena foi retratada pela atriz Flávia Alessandra no filme “A Lei é Para Todos”. Afinal, foi ela quem deu o nome de fantasia à operação.

Na manhã de 14 de setembro, uma semana depois da estreia do filme, a delegada mobilizou 105 policiais e prendeu espetacularmente o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, e outros quatro professores.

Marena acusou-o durante uma entrevista coletiva de obstruir as investigações que apuravam um desvio de R$ 80 milhões do programa de ensino a distância. Depois de ter dormido na cadeia, o reitor foi libertado por uma juíza. Não podia pisar no campus da universidade, em cuja vizinhança vivia. Passadas duas semanas, Cancellier publicou um artigo falando da “humilhação e vexame” a que havia sido submetido e, no dia 2 de outubro, atirou-se do sétimo andar de um shopping de Florianópolis.

Faço porque posso

Depois do voto de Gilmar Mendes sobre a suspeição de Moro, a turma da Lava Jato responderá pelas tramoias que armou contra ministros do Superior Tribunal de Justiça.

Discussão

Um comentário sobre “Corrupção em nome da justiça

  1. Cada vez que eu leio sobre a Lava-Jato mais eu fico enojado. Virou a coisa “justiça à qualquer preço” ou “o fim justifica os meios”. O saldo final absolve os erros e abusos da Lava-Jato? Tenho minhas dúvidas. Ainda mais se pensarmos que propiciou a chegada de um escroque genocida ao poder,

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    Publicado por Gleydson | 2 de março de 2021, 13:35

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