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Cultura, Política, Terras, Violência

O canto negro de Expedito

Apresentação que escrevi para o livro de poesias de Expedito Ribeiro de Souza, O canto negro da Amazônia, 30 anos atrás.

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No ano passado Expedito Ribeiro de Souza selecionou poesias no vasto acervo de literatura de cordel que havia produzido e inscreveu-se num concurso promovido pela Fundação Cultural Tancredo Neves, em Belém. Conseguiu um terceiro lugar. Se fosse o primeiro colocado, e se a Fundação agisse rápido, Expedito teria tido a alegria de ver um livro seu publicado. Mas o prêmio não veio, o livro não saiu, e Expedito foi morto com três tiros, perto de sua casa, em Rio Maria, no dia 2 de fevereiro.

Este, portanto, é um livro póstumo. Nada a reclamar da comissão que não deu o primeiro lugar ao alegre Expedito. As poesias dele não são obra prima, nem mesmo se circunscritas ao âmbito do cordel nacional. Com todo poeta popular, ao contrário dos fâmulos e dândis das avenidas formais do verso, Expedito sabia muito bem de suas limitações e as expunha ao público. Versejar, porém, era a maneira de projetar sua esperança, realimentando-a. Maravilhosa é essa condição humana, que não prescinde da poesia como forma de conhecimento, emoção, prazer, mistério, surpresa e alegria – no sangrento sertão, ou na sangrenta cidade.

Em meio à violência e aridez que o campo cobra dos que nele sobrevivem, Expedito era a confirmação da inesgotável capacidade humana. Imigrante, lavrador, preto, pobre, religioso, líder, comunista e poeta. É muito título para uma pessoa tão humilde. Um título não é nada, um título é apenas uma etiqueta que se afixa numa pessoa para classificá-la, quando necessário. A pessoa Expedito Ribeiro de Souza transcende a etiqueta colocada em seu corpo inerte para o inevitável assento necrológico. Ele foi como aquela flor que nasce no meio do asfalto, amarela que fosse, mas flor, um produto do milagre humano percebido pelo grande poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro como Expedito, mineiro como o mago do sertão Guimarães Rosa, ciranda de mineiros que não se passaram ao passarem pela vida deixando sua marca.

Quanto capital humano penosamente fabricado é desperdiçado em fração de instantes pela estupidez dos homens, pela convivência dos homens, pela insensibilidade dos homens por trás de um gatilho de revolver de pistoleiro. Expedito foi assassinado porque pensava pelos seus, brigava por eles, queria que fossem menos desiguais do que os mais iguais da sociedade. Porque há uma liturgia dessa palavra e uma confraria desse rito. Expedito tornou-se militante do Partido Comunista do Brasil, que, em Rio Maria, tenta manter sua mística do Araguaia (mais mito que mística, aliás). Na sala da pobre casa em que morava, deixada para mulher, nove filhos, mãe e agregados dividirem. Expedito mantinha um cartaz do PC do B e imagens bíblicas, além do retrato das chagas de Cristo. Isto é Brasil.

Quem entende de sertão sabe, aprende, respeita. Quem de sertão tenta fazer mares nuca dantes navegados, em papel ou celuloide, naufraga – e arrasta consigo aquele forte que só em cabeças grandiosas rebrota por inteiro (nas de Rosa e Euclides, por exemplo).

Os poetas costumam ser doces, mas é de sua natureza ir ao fundo dos homens, trazendo-lhes as raízes. Não espanta que os violentos tomam os poetas como alvos preferenciais. Garcia Lorca, um sertanejo andaluz, sucumbiu à aurora fascista na Espanha.   A Maiakovski não coube outra alternativa senão o suicídio, que Eisenstein – poeta da imagem – bebeu em goles lentos, inodores, imorais (na imoralidade de escapar ao fatalismo planejador de Papá Stálin).

No sertão amazônico, nem mesmo o poeta pode reinar pacifica e docemente. Mesmo divino, ele que se arme e se acautele, como está escrito nos versículos do “Grande Sertão Veredas”. Pessoas do povo, como Expedito, se tornam poetas porque os grandes temas filosóficos da vida os levam a transcender a prosaica comunicação de todos os dias. Nenhum tema é mais filosófico do que a morte. Nenhuma agenda de Rio Maria é fechada a cada dia sem considerar uma morte, ou um anúncio premonitório da morte, como a de Expedito, ou a dos Canuto. Neste livro, que abriga apenas alguns das poesias que ele produziu, o tema é quase profético. Infeliz do país em que poetas são infalivelmente proféticos, e as autoridades incompetentes, cúmplices.

Não podendo preservar a vida de Expedito, de muito listada para ser consumida, salvamos seus versos, na tentativa, talvez vã, mas necessária, de que permaneçam no ar, como o perfume a que aspirava ser outro poeta do povo, o maranhense João do Vale, de mais sorte por não ter “mexido” nos mortíferos assuntos da terra, razão da vida de milhões de desterrados brasileiros, razão também de suas mortes.

Além das poesias, este livro divulga a última entrevista de Expedito, concedida a Marcionila Fernandes. Aluna do curso de mestrado do Plades, no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Marcionila conversou várias vezes com Expedito, em função de sua dissertação de mestrado, sobre a atuação de fazendeiros no Pará, tornando-se amiga do lavrador. Ela também é autora do breve perfil de Expedito.  Foi ainda quem recolheu as poesias que selecionei para este livro, com o qual se espera, também, ajudar na difícil sobrevivência da família do líder sindical assassinado.

Aqui está o registro da voz do poeta que fala pelo povo, e, como diz o povo: empresta a voz de Deus. Que outros poetas do povo não inaugurem sua literatura postumamente, é o que esperamos, e pelo que continuaremos a lutar.

Belém, fevereiro de 1991, Lúcio Flávio Pinto         

Discussão

5 comentários sobre “O canto negro de Expedito

  1. Belíssima apresentação !
    Que bom se fosse reeditado O Canto Negro da Amazônia …

    Por onde andara Marciolina?
    Seu livro ” donos de terras: trajetórias da união democrática ruralista -UDR” também merece uma re-edição .

    Curtir

    Publicado por Marly Silva | 31 de agosto de 2021, 20:58
  2. Emocionante esse texto, além de perfeito. Parabéns!

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    Publicado por Marilene Pantoja | 1 de setembro de 2021, 17:16

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