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Imprensa

A história na chapa quente (51)

Escatologia petista

(Troca de cartas na edição 257 do Jornal Pessoal de abril de 2001)

A polêmica é um dos grandes momentos da atividade intelectual. No jornalismo, é um elemento vital, infelizmente abolido das nossas grandes folhas burocratizadas. O duelo numa polêmica pode ser duro, violento, mortal. Mas tem que obedecer a determinadas regras éticas e morais.

A principal delas é servir de elemento de informação para a opinião pública. A outra é a de buscar um patamar de equalização dos contendores. Eles devem se atrair por seus pesos, campos gravitacionais e estaturas. O Friburguense pode e deve jogar com o Flamengo. É capaz de vencer o time rubro-negro. Mas, até que ocorra uma mudança drástica consolidada, uma partida entre o Friburguense e o Flamengo não é um clássico do futebol carioca.

Foi uma felicidade para mim ter polemizado com pessoas como Vicente Salles, de quem me tornei amigo ao criticar seu livro Música e músicos no Pará, e um admirador permanente, não só das suas qualidades de pesquisador e escritor, como de seu caráter. Também têm sido uma fonte de aprendizado para mim os sucessivos embates com Jarbas Passarinho, que já duram mais de 30 anos.

Alguns dos momentos dessa litigância foram extremamente ásperos e contundentes, mas o nível de respeito que mantivemos nos permitiu restabelecer uma relação civilizada após o choque de manifestações (e agora, no outono do coronel, uma afetividade que faz bem – a ambos, presumo).

Expusemos nossas posições de tal maneira a permitir aos leitores tirar suas próprias conclusões. Se não mudamos em substância o que pensávamos, ao sermos obrigados a expor o que pensávamos ao fio da navalha da crítica, evoluímos e talvez tenhamos contribuído para a evolução de terceiros, cada um dos envolvidos com uma margem de liberdade suficiente para não ser sufocado pelo ardor do outro duelista.

Infelizmente, porém, também tenho provocado a reação de pessoas que não querem servir ao público, que não estão interessadas em contribuir para a formação de ideias, que não trazem qualquer pensamento para a arena dos contrários.

O que querem é intimidar, fazer o oponente se curvar à força de suas agressões estabanadas, sem qualquer fundamento, exceto o de mantê-las à distância de qualquer controle, completamente livres para dispor ao seu arbítrio do poder público a que tiveram acesso, nem sempre meritoriamente.

É esse o caso de Francisco Cavalcante, dono da Vanguarda Propaganda e da conta publicitária da prefeitura de Belém, agora sujeita a uma CPI da Câmara Municipal, instaurada para apurar se foi de maneira limpa e legal que a empresa venceu a concorrência da PMB.

O publicitário Cavalcante acha que pode me assustar e atemorizar reagindo com selvageria à crítica que fiz ao livro dele, Comunicação militante, escrito em parceria com outra jornalista da prefeitura petista, Ruth Vieira, mediocremente lançado na semana passada em Belém, numa festa de fraco comparecimento (mais de quatro meses depois da publicação do livro).

Eu podia ter dado aos dois e-mails que o publicitário Cavalcante me mandou o destino que eles merecem: a lata de lixo (a latrina podia ficar entupida). Mas ele é um dos homens mais fortes do grupo que, por um capricho da história, ocupou o palácio Antônio Lemos há pouco mais de quatro anos.

Logo, representa aqueles que são responsáveis pelas principais decisões em uma cidade de 1,2 milhão de habitantes. É uma amostra representativa, sem censura, do que, debaixo da maquilagem publicitária, é essa ala do PT que se aboletou na administração belenense.

Chiquinho não é apenas o Goebbels da prefeitura, como disse na resenha do seu livro. Ele é também o Hélio Gueiros petista. Além de ser essa a interpretação natural a que se chega ao fim da leitura dessa correspondência abjeta, é ele próprio que decide assumir a identidade, de resto, já existente: afinal, sob o pseudônimo de Décio Malho (para ser lido “desce o malho”), Chiquinho estava por trás de uma coluna torpe publicada no Jornal Popular.

Sob esses trajes bifrontes de médico e de monstro, ele está plenamente autorizado a falar de Silas Assis, de quem se aproximou exatamente através de Hélio Gueiros e com quem teve contatos para pagar (descontando os 20% de comissão da sua agência, é claro) as peças publicitárias da prefeitura de Belém inseridas, com total despropósito em relação a normas técnicas e mercadológicas (sem falar em éticas, morais e políticas, que o personagem ignora), naquela nauseabunda publicação. Ainda hoje, a que mais elogios faz à administração Edmilson Rodrigues (após uma chuva de críticas motivada pela momentânea estiagem de dinheiro)

Covarde como só ele, Chiquinho atribui a um morto comparação de Silas comigo, uma mórbida e nojenta forma de chamar em vão o testemunho de Euclides Bandeira exatamente quando sua morte completa um ano. O publicitário Cavalcante nunca foi interlocutor do Chembra, exceto, talvez, por interpostas pessoas íntimas do falecido jornalista (e agora também petistas, por necessidade).

Bandeira foi meu “foca” em A Província do Pará, meu companheiro no primeiro (e no terceiro) Bandeira 3, vice-presidente na chapa que presidi no sindicato dos jornalistas e meu querido companheiro de mesa de senadinho.

Nossas evidentes diferenças jamais foram maiores do que nosso mútuo respeito e admiração, além do querer bem, que constitui a pedra de toque para quem participa da nossa confraria. Se alguém disse para o publicitário Cavalcante que Chembra disse o que o dono da Vanguarda diz que o Chembra disse (sem ter qualquer das qualidades de um interlocutor do falecido jornalista), então mentem dois: a fonte e seu papagaio ignorante.

Na nossa mesa senta também Orly Bezerra, o dono da Griffo Propaganda e da principal conta do governo do Estado. Senta, aliás, com frequência cada vez menor, por nós todos, “senadores”, lamentada. Porque são uma das atrações da nossa távola as discussões que Orly e eu travamos a propósito das matérias deste jornal sobre a administração Almir Gabriel, em tons que já estiveram decibéis acima da cordialidade, mas não ultrapassaram o limite da civilidade.

Nem Chiquinho nem o leitor são obrigados a aceitar o fato. Mas os petistas podem recorrer a um companheiro de primeira hora, o advogado João Sá, para a prova dos nove. João é outro maravilhoso (e impontual) conviva em uma mesa que não cobra atestado ideológico aos seus frequentadores. Quer apenas que eles tenham senso de humor para aguentar a galhofa e tolerância para aceitar as diferenças. Cada um chega e sai com suas convicções, posições profissionais e opções pessoais. Ao fim de cada sessão, agradecemos silenciosamente por sermos tão diferentes (aproveitando para falar mal do outro, é óbvio).

Devo responder a tanta estultice, dita com a consequência de alguém de mentalidade tão primária, um juquinha iniciado no chiqueiro? À acusação de ser almirista posso retrucar pedindo ao respeitável leitor que revise todos os números do Jornal Pessoal a partir de maio de 1995, quando esta publicação voltou a circular após sua segunda e última (derradeira, espero) interrupção.

Nenhum governador foi tantas vezes capa de edição e tão malhado; não porque o doutor Almir seja pior do que seus sucessores: é porque frustrou as melhores esperanças que havia suscitado e se acostumou a uma imprensa domesticada pela verba da propaganda oficial, passando a achar que isso é jornalismo.

Quanto a fazer o jogo dos “candidatos conservadores”, também é suficiente ao leitor consultar a coleção do JP. A última edição antes da eleição do ano passado era uma detalhado e incisivo desnudamento da fraude do diploma de Duciomar Costa (que disse a amigos ter pensado em me processar, deixando que o recado chegasse aos meus ouvidos devidamente moucos), combinada com uma crítica ao primarismo de Edmilson Rodrigues, este tartufo que julga poder reescrever a história através de uma técnica de marketing iniciante.

O mesmo se aplica à diatribe de que passo a mão na cabeça da CVRD porque a conta da empresa passou para a agência do Orly. Basta ler as muitas matérias que já escrevi e continuarei a escrever, quando nada porque a Vale vive esse paradoxo: é a maior empresa do Pará sem ser, nem mentalmente, paraense.

Enfim, não mereço um polemista rés-o-chão como Chiquinho. No PT há gente honesta, decente, competente, digna, inteligente. Mas onde está essa gente, que aceita as infâmias de pessoas como o chefe da propaganda oficial municipal? Cargos de confiança, chefias e sinecuras calaram a todos? Esses temem um Gulag paroara? Outros preferem deixar-se embalar pela teoria do aparelhamento, do vamos conquistar o poder e depois pensar na reforma social?

Pensando nesse silêncio triste, me veio à memória o arquiteto do Reich dos mil anos. Albert Speer esteve ao lado de Hitler, foi seu confidente, dele nos deixou um testemunho impressionante, fez observações brilhantes sobre seu tempo – e depois passou incólume pelo teste de Nuremberg e de sua própria consciência, acabando numa velhice pastoral.

Mesmo assim, continuo convencido que foi esse tipo de gente sobre as quais Dante manifestou seu asco na Divina Comédia: os indiferentes, os neutros, os passivos, os coniventes e abúlicos, que preferem o purgatório a se arriscar a um gesto de indignação, de fibra, de decência. O PT do Pará é uma legião de Speer, que passaria por um regime stalinista ao tucupi como se ele fosse o jardim dos Finzi-Contini?

Fica a pergunta, inquisitiva mesmo. Infelizmente, sou obrigado a transcrever as mensagens do homem da propaganda da prefeitura petista, um lodo que busca me atingir, mas volta, como bumerangue pútrido, sobre quem praticou a sujeira. Um Hélio Gueiros vermelho translúcido, conforme ele próprio fez questão de ressaltar na busca de inspiração, exatamente quando a pornográfica carta do ex-prefeito completa 10 anos.

Inspiração de sarjeta na mente de quem diagnostica doença mental e não sabe identificá-la, diz ter escrito quatro livros e não os arrola para a devida correção, e põe para fora seus piores instintos a propósito de um artigo que diz não ter lido, mas sobre o qual diz tudo.

Ora, se não leu meu artigo e sobre ele fez tal juízo de valor que mais parece uma rameira de rua, Chiquinho é um leviano; se o leu e diz que não o fez, julgando que assim me humilha, Cavalcante é um mentiroso. Ou é uma coisa e outra, acrescidas e multiplicadas por sua raivosa e doentia maneira de querer calar uma pessoa tentando amedrontá-la.

Se essa foi a intenção, Chiquinho pode perder as esperanças. Com ou sem elas, duvido que volte ao trabalho honesto que alega ocupar seu tempo. Isso, tudo indica, pelo que ostenta, não é sua especialidade.

Quanto aos leitores, espero que encarem a leitura das duas mensagens a seguir como um teste: o desafio de, a despeito de Chiquinhos Cavalcantes da vida, continuar acreditando na raça humana e na história dos homens.

As cartas:

1

O jornalista Lúcio Flávio Pinto é maluco. O bom senso manda não discutir com malucos.

Atenciosamente,
Chico Cavalcante

2

Pinto.
Teu artigo de encomenda, escrito a pedido dos amigos almiristas com quem partilhas a mesa, é a demonstração não apenas de tua insanidade mas de tua desonestidade crônica – talvez genética, como disse certa vez Hélio Gueiros. Ora, a existência de um Jornal Pessoal é, em si, uma demonstração de que tu praticas um retro-jornalismo avesso à crítica, ao debate coletivo e, portanto, anti-social, onde a última palavra é sempre tua, onde a verdade está contigo, onde os outros estão sempre errados e tu, o sábio entre as traças, a reencarnação de IF Stone, sempre certo. Nos compêndios de psiquiatria tal moléstia tem um nome. Te sugiro que busque ajuda.

O respeito que tinha por ti foi pelo esgoto junto com aquele monte de merda que escreveste contra mim e contra o prefeito de Belém no ano passado, com o intuito claro de fazer opinião a favor dos candidatos conservadores, contra a esquerda, às vésperas da eleição, ao mesmo tempo em que calavas diante dos escândalos clandestinos que a trupe amarela produz em escala industrial.

Aliás, cadê a Vale do Rio Doce? Sumiu de teu panfleto. Será que é porque agora a Vale é atendida pelo teu patrocinador? A convivência com os ratos e os favores da cúpula almirista estão agravando
teu estado mental a olhos vistos. O que tu ouves por lá, reproduzes de maneira acrítica e alienada.

És um papagaio do Orly. Não tens, por isso, estatura moral ou intelectual para fazer mais do que fazes: um jornaleco imundo, um panfleto raquítico que, como bem me disse o saudoso Chembra, te reduz a ser nada mais nada menos que um Silas com verniz erudito. Aliás, não li teu panfleto. Tenho coisa mais importante para fazer na vida, como criar meus filhos e trabalhar honestamente.

Mas pelo que me informaram, escreveste que o livro que escrevi com Ruth Vieira é meu “único” livro. Mais uma vez, informas desinformado. “Comunicação Militante” é meu quarto livro. E nenhum deles foi feito apenas colando estatísticas alheias, como os teus. Te sugiro fazer sexo. A gala seca em tua cabeça pode ser a causa dos delírios que externas.

Cordialmente,

Chico Cavalcante

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (51)

  1. Caro Lúcio Flávio Pinto

    Acompanho-o – de muito longe e de forma intermitente e pontual – desde meados dos anos 70, quando estive em Belém e Castanhal por uns seis meses e (acho) que li matérias assinadas por vc no Estado do Pará. Também via matérias suas no nosso Esadão – O Estado de São Paulo.

    1. Sempre tive enorme respeito por vc. Não entendi direito o porquê dessa escatologia petista. Apesar de todos os erros que possamos – enquanto partido e como militantes – termos cometido – acho que a polarização com o PT faz parte do jogo dos conservadores. É compreensível como estratégia político-partidária para chegar e manter-se no Poder. Mas não deveria ser estratégia jornalística… 2. Vide o exemplo de Janio de Freitas: nunca foi petista. Li muitas matérias dele muito duras ao Lula e ao PT. Mas a um bom tempo parece (e é apontado pelos leitores conservadores) como petista roxo. Como ele sabe, e eu também foram muitos erros estratégicos e até morais que o PT cometeu, mas porque polarizar só com o PT . fomos piores? Os resultados da adminsistração do Lula e da Dilma foram desastrosos para o pais, como difundia a velha mídia dominante? 3. Uma manifestaõ favorável a sua argumentação. Foi por vc que fiquei sabendo que o processo contra a priatização da Vale ainda corre em Form da Comarca de Belem. O que a grande imprensa não ventila, para não levantar a lere…vai que alguém vai atrás, né?

    Gostei muito da sua resposta ao Chiquinho, que não conhecço. Mas não achei a mensagem dele tão estulta quanto vc a qualifica. Pareceu-me indignada. Não li a mate´ria por vc publicada que gerou a polêmica,e assim fica dificil melhor avaliação. Mas, sinceramente, não estou interessado nessa polêmica

    Também gosto de conhecer, debater e conviver com os que pensam diferente. Ás vezes é durao, mas é enriquedcedor.

    Um gde e fnt abç

    Paulo Mancini

    1. Bem um gde e ftn abç 2. 3.

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    Publicado por pjpmancini | 25 de janeiro de 2017, 18:30
    • Muito obrigado pelo seu acompanhamento e as suas judiciosas avaliações.
      O artigo que motivou a carta não a justifica. Para mim, abjeta, porque não cabe indignação quando provei que ele mentiu e que não se defendeu do que eu disse no artigo. O texto está disponível na série, a 49.
      Espero continuar a merecer a sua atenção.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 25 de janeiro de 2017, 18:45
  2. Entre o jornalismo e o marketing, ainda que em alguns momentos as essências pareçam confundir-se, o primeiro é de longe o mais apropriado para caminhar na sociedade.

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    Publicado por Luiz Mário | 26 de janeiro de 2017, 18:06

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